sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O CRENTE VALENTE


O casalzinho de evangélicos, certamente que voltando da igreja, ia sentado num banco do ônibus. Já era bem tarde, quase umas onze horas e os outros passageiros fitavam com o olhar monótono a chuvinha fina e insistente nas janelas embaçadas.

Na Senador Queiroz, entretanto, subiram dois rapazes visivelmente alterados. Sabe-se lá o que tinham bebido, fumado ou cheirado, pois começaram a incomodar os passageiros, fazendo gracejos bestas e rindo muito das próprias piadas. Implicaram com os evangélicos:

- E aí, irmão, tudo na santa paz?

- E aí, irmãzinha? Tem jeito aí?

Coisas assim, idiotices de quem não está lá no seu estado normal. Os outros passageiros desviavam o olhar, acabrunhados, não querendo intervir. E o casalzinho evangélico firme, olhando para a frente, sem reagir.

- Ô da Bíblia! Faz um milagre aí, vamos ver!

Foram assim, zoando e rindo, até que, na altura da Praça da República, o mais patusco deles cometeu a besteira de colocar a mão no rosto da crentinha, que se encolheu toda no banco. Aí o tempo fechou: o marido, colocando a Bíblia no banco, levantou-se:

- Escuta aqui, ô seus palhaços: vão descer agora, ou vão querer apanhar aqui dentro mesmo?

E já foi catando os dois pelo cangote e jogando-os para fora do ônibus, a poder de sopapos e pescoções. O povo vibrava, admirado da valentia do crente.

- Deus manda ser humilde, mas não manda ser frouxo!

E o ônibus seguiu a viagem, na santa paz.

dez 2006

Um comentário:

João Eduardo Q. C. disse...

Oi, Dalva!

Aaa, como eu gostaria de ter visto essa cena! Isso sim que seria desopilar o fígado sem tomar Epocler. E, cá entre nós, como Sampa tem "gente" que merece mesmo ser "ejetada carinhosamente" de ônibus e metrô, né?

Beijos!

João Eduardo