quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

MARIA MURCHA



Eu tenho medo da velhice. Das rugas, da tremura, da impotência, do reumatismo... Tenho muito medo de perder a memória e ficar sem defesas, como os que chegam à última etapa da vida com aqueles olhinhos de criança em terreno estranho.
Mas, acima de tudo, eu tenho medo de ficar como a Maria Murcha.
Maria Murcha é o apelido que a molecada colocou na pobrezinha da Rosária, uma prostituta velha da nossa pequena cidade de interior. Velhinha, ela perambula por aí feito cachorro sem dono, fuçando o lixo daqui e dali, à procura de quem lhe dê uns trocadinhos, ou um prato de comida. Ou uma dose de pinga.
Ela mora lá em cima, nas casinhas populares, no meio dos cachaceiros, da mulherada da zona e de outros degredados. Vive da caridade pública e privada, veste qualquer coisa, come se lhe dão. E bebe, coitadinha, bebe feito um gambá.
A família já sumiu faz tempo. Os homens...esses então!
Quando é noite de lua, daquelas gostosas noites de lua da nossa cidade, a Maria não volta para o gueto. Os arruaceiros que voltam das farras costumam encontrá-la, sentadinha num banco de pedra da praça, fumando e bebendo sozinha. Cantando modinhas antigas, bebinha, bebinha:

...Hoje sou folha morta
Que a corrente transporta
Oh, Deus!
Como eu sou infeliz!

Eu tenho muito medo de acabar como a nossa pobre Rosária. Sozinha no mundo e servindo de alvo para as brincadeiras de mau gosto da molecada do grupo escolar.

foto: "Slow Night" - Darius Nemanis

Um comentário:

João Eduardo Q. C. disse...

Nossa, me deu arrepios agora! Eu também sinto esse medo. Já sentia antes, lá nos primórdios da minha existência, mas agora aqui do alto dos meus 42 e com a síndrome do pânico cíclica que tenho faz 6 anos fico mal pacas e uma sensação de incômodo na alma que demora a passar.

Beijos,

João Eduardo