quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O PADRE NOVO











Passado algum tempo do falecimento do Padre João, mandaram um padre novo para a nossa pequena paróquia. Chamava-se Paulo e vinha da Inglaterra. Um padre britânico, que coisa mais chique!
A população acorreu em peso à primeira missa, um pouco por causa do hiato entre a última missa e aquela. Demorou tanto para chegar o padre novo! Outro tanto por causa da novidade: como seria o tal padre? Seria severo, seria formal, seria moderno? Porque o antigo...


Naquele domingo também, bem antes do início do santo serviço e antes da chegada de qualquer fiel, arribaram as três beatas, para abrir a igreja. Invariavelmente vestidas de preto e abotoadas até a linha da forca, usavam uns véus pretos meio tétricos. Traziam lírios e dálias vermelhas e brancas, para trocar as flores dos vasos nos altares dos santos.


Elas faziam parte da linha de frente da cúria, e o seu precioso adjutório certamente caberia, por herança, ao sucessor do antigo cura. As beatas limpavam, decoravam e enfeitavam a igrejinha, administrando-a com um furor de obséquios, como se aquilo fosse uma tarefa delegada diretamente pelo Poder Superior, junto com a Tábua dos Dez Mandamentos. Cheiravam a espermacete e a cravos.


Uma delas, a Maria Ancilla, era a beata-chefa, a prima-dona das beatas. Tudo que ela fazia era melhor do que as outras. Tudo, mas TUDO mesmo!
Bonitona, beirando os quarenta, Maria Ancilla se esmerava. Era prestimosa no serviço prestado ao Altíssimo por via de suas obras na manutenção da igreja e na casa paroquial, onde servia de cozinheira, lavadeira, arrumadeira, costureira, manicure, secretária, confidente. E etcétera.


Foi aí que entrou a mão sutil do capeta...


Acontece que o Padre Paulo era um pedaço de mau caminho: ele era um baita de um homão alto, loiro, da cara vermelha enfeitada por par de olhos azuis claros e profundos, um dos padres mais bonitos que já passaram por aquela paróquia. Tinha uma risadona gostosa que espantava as pombas pousadas no beiral do telhado. Quando cantava - e cantava bem, o danado - sua voz de barítono mexia com o baixo ventre do mulherio da cidade, a beata Maria Ancilla inclusa, que a carne é fraca.

Tão fraca que, depois de um tempo, Maria Ancilla apareceu grávida, de dar na vista. Ela, Maria Ancilla, a beata-chefa, a locomotiva divina, o bate-estaca da fé!
Tira-não-tira, deixa-não-deixa, é-teu-não-é-meu... assim desenrolou-se a encalorada batalha entre o ser e o não ser, entre a razão e a emoção.

Acuado entre a cruz e a espada, o padre teria que decidir-se entre a assunção pública do fruto e as suas previsíveis e escandalosas conseqüências - o que era um calvário - ou então a amargura do anonimato e da covardia convenientes às suas altas patentes de soldado da fé - o que era uma saída e tanto.

foto: "Temple of Doubt" - Max Sesow

2 comentários:

Legabal disse...

Hola Dalva Me ha gustado mucho tu relato Creo que es un modelo de concisión, frescura estilística y una gracia innata de dama grande de la literatura. Vamos que me enamora tu estilo. Es música para mi y creo que aprenderé tu idioma contigo.
Por cierto ví un comentario tuyo en la página de Clarice. ( Te dejé nota )
Beijos, Dalva. Espero escribirte más. Moitos beijos, Dalva, amiga de oro y delicadeza.

João Eduardo Q. C. disse...

Oi, Dalva!

Esse negócio de padre e beata com furores escrotais e uterinos respectivamente é um tabú que rende muitas histórias. Aaa, e bebês também! (Kekekekeke...)

Bjs e um ótimo fim-de-semana!

João Eduardo