sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

LUZINHAS PISCANDO






Todo ano, ali pelo meio do mês de novembro, era certeza: a velha senhora decorava a pequena varanda do apartamento do terceiro andar com luzinhas pisca-pisca, bolas multicoloridas e enfeites feitos de papel-alumínio. Entrava no clima.
Eu, que trabalhava ali em frente, num servicinho monótono que me permitia trabalhar e ao mesmo tempo soltar a imaginação pelo mundo, sonhava.
Sonhava com a dona daquela varanda - que eu via pelo menos uma vez ao dia, quando ela saía para regar os gerânios plantados em latas - eu sonhava como seria a sua vidinha pacata. Sabia tão pouco sobre ela! Só sabia que ela era velha, que gostava de gerânios, que tinha um gato gorducho e que talvez aquela fosse a sua única companhia naqueles dias e noites nada festivos. Ela certamente era também uma solitária, pois todos nós sabemos que os solitários têm gatos.
Naquele ano, meados dos anos 60, não foi diferente: a velhinha começou a decoração muito cedo. Bolas, flores, guirlandas, luzes coloridas... e então o arremedo de felicidade começou a piscapiscar.
De certa forma, a minha alma era então orientada por aquela parafernália, como se somente depois de ver os seus enfeitezinhos me fosse permitido entrar também no clima certo. De certa forma, eu esperava em suspenso, olhando para cima, para a varandinha do terceiro andar, até a liberação: o sinal verde-vermelho-amarelo-azul, que acendia-apagava-acendia, para ser também feliz. Ainda que supostamente, ainda que convencionalmente, pois só então seria Natal.
foto: web

6 comentários:

angela disse...

Lindo conto. Sempre me surpreendo com a capacidade do ser humano de estabelecer relações significativas só com a imagem e a imaginação. Acho que é nesse mundo sonhado a partir de alguns significantes que o mundo virtual caminha.
beijos

João Eduardo Q. C. disse...

Este ano será meu primeiro Natal órfão de pai e mãe. Estou me sentindo oco, no clima, mas oco. Até a árvore de Natal que a gente tem foi presente da minha mãe, e neste ano não será montada e enfeitada. Mas, colocamos na porta de entrada da casa uma guirlanda e alguns enfeites pela sala. Eu não quero que o Natal se torne uma data comemorativa cruel, mas vai ser impossível não lembrar que no dia 26/12 do ano passado minha mãe infartou indo ao banco para receber sua aposentadoria. Em contrapartida, dia 24/12 minha avó fará meigos 90 anos! Ontem passei na casa da minha tia para visitá-la a minha velhinha é de uma doçura e bondade maravilhosa. Cortei o cabelinho dela pra quando chegar o Natal ele não estar tão arrepiadinho. Era contagiante minha mãe e minha avó montando a árvore de Natal... Tempos maravilhosos que jamais vou esquecer.

Beijos!

Larissa Bohnenberger disse...

Nunca tive uma ligação muito forte com o Natal. Quando criança, eu às vezes até ajudava minha mãe na decoração da casa, mas era mais pela folia do que por qualquer outra coisa. Me lembro muito pouco deste período festivo, em outras épocas. Mas lembro bem que adorava sair de carro à noite e passar pela frente das casas e dos prédios observando as luzes e a decoração. Hoje não se vê mais isso., Era muito bonito, mesmo!
Bjs!

Martin Bolivar disse...

Boas festas y felcidades.

Dona Sra. Urtigão disse...

FELIIIZZZ ANOOO NOOVOOOOO!!!!!!!!!

Manuel Luis disse...

E estamos quase noutra Natal.Gosto dos Natais passados talvez porque fosse criança!
Gosto dos seus contos e até dos comentários muito preciosos, o do João até comove pela perda dos seus queridos.
Abraço