segunda-feira, 3 de maio de 2010

PAZ E AMOR!


Sou uma pessoa prática. Acredito piamente na livre iniciativa, mas penso também que tudo aquilo que fazemos é só no intuito de obter prazer, aprovação, elogios, reconhecimento público ou privado, na nossa intrincada vida em sociedade. Não consigo conceber a virtude isolada, a ação sem reação, o automatismo absoluto do caráter. Quando estudo, estou querendo uma nota boa na prova. Quando trabalho até mais tarde, estou de olho num aumento de salário ou numa promoção. Quando faço carinho em alguém, logicamente espero que esse alguém me retribua, seja em gênero, número ou grau. Ou não é assim?
Não. Pelo menos não é assim para a Dóris, a minha linda, loira, malucona e feliz amiga Dóris.
Conhecemo-nos já faz bem uns quarenta anos, se não mais. Trabalhamos juntas no call center duma grande multinacional, num daqueles prédios de oitocentos andares, no centro da cidade. Eram os anos 60, éramos novinhas, bonitinhas, magrinhas, alegrinhas, inteligentinhas, cheias de sonhos e ideais, cheias de amor para dar. E como dávamos!
Não vou aqui entregar a colega, falo por mim: eu pelo menos fazia exatamente o que me dava na telha, afinal era o Women's lib, o make love not war, etc e tal. Ser livre significava, então, imitar tudo que os meios de comunicação (leia-se os Estados Unidos) mandassem: vestir-se de hippie, fumar e beber e usar de um tudo, e trocar de parceiro quando sentisse vontade. (Paz e amor!)
Sobre a Dóris, só posso dizer que ela também era uma menina avançadinha, que vestia, fumava, bebia, usava e fazia tudo aquilo que acabo de citar. Eram os anos 60... Mas tudo passa, eu sei bem.
O tempo passa, a moda passa, e vêm as inevitáveis mudanças físicas, acompanhadas das mudanças ideológicas. Nem ficava bem a gente aí zanzando pelas ruas, cheia de ruguinhas e cabelos brancos, tentando prolongar uma juventude e uma liberdade que já lá se foram. No mínimo ridículo, por anacrônico. Afinal eu estudei, me formei, tenho um cargo invejável numa multinacional, namorei e casei, sou uma dita cidadã respeitável, tenho filhos adolescentes. Não ficava bem.
Mas a Dóris não pensou assim.
Alguém me disse que a viu, na Paulista, ali perto do Trianon, sentada sobre um panão preto estendido na calçada, vendendo badulaques. Pulseiras, colares, essas coisas. Curiosa, peguei o primeiro vôo com destino a São Paulo, emboquei na muvuca do metrô e saí à procura de Dóris. Você já perdeu alguém em São Paulo? Anda, vira, mexe, procura daqui, interroga de lá, acabei numa feirinha de antiguidades que tem em Pinheiros, na Praça Benedito Calixto. Famosa.
E não é que achei a Dóris! Lindona, do alto dos seus "58 anos muitissimamente bem vividos", de oclão a la Janis Joplin, cabelão loiro solto nas costas, maravilhosa, e ainda devidamente trajada de hiponga, vendendo artesanato. Minha amiga Dóris.
Abraçamo-nos num longo abraço apertado, ali no meio do povo, que passava prá lá e prá cá sem adivinhar que quarenta anos de inevitáveis diferenciações, de perdas e encontros, de fugas e descaminhos pelos igarapés e igapós da vida, estavam se apagando ali mesmo. Nem que aquelas duas coroas ali viajavam (a seco) no tempo, para um passado mágico e distante, onde se usavam flores no cabelo e, pelo menos nós, flores no coração.