domingo, 21 de novembro de 2010

O CIRCO (2)




A cidade amanhecia em festa quando o circo chegava.

Os trapezistas, as dançarinas, os palhaços, os músicos e uma jaula com um leão velho e sonolento faziam seu desfile colorido, enquanto o diretor ia adiante, com um altofalante à boca, convidando o povaréu para a função:

- Senhoooooras eeee senhoreeeees!

As fantasias multicoloridas se destacavam na paisagem monótona e empoeirada do interior, despertando as pessoas do seu torpor de domingo eterno com aquela alegre anarquia de palhaços e bumbos.

O circo chegou!

Formava-se então uma longa fila indiana para comprar ingresso, que dobrava a esquina, subindo até a casa paroquial. O povo era capaz de deixar de comer, para ir ver o espetáculo!
Nós, crianças, entrávamos num estado de excitação suprema, pedindo dinheiro para os pais, quebrando porquinhos de barro, contando moedas.

O circo chegou!

Na hora do espetáculo, com um saco de pipoca na mão, sentávamos nos bancos mais altos, lá perto da lona pobrezinha e salpicada de furos. De olhinhos arregalados, assistíamos as fantásticas peripécias dos trapezistas, que voavam no ar com aquela destreza inconcebível. O coração vinha na boca, a cada surpresa:

- Oooooooooh!

Muitos de nós, senão todos, um dia sonhamos largar para trás aquele nosso mundinho desenxabido, fugir de casa e entrar para o circo. A nossa vida haveria de ser tão venturosa, percorreríamos o mundo todo, anunciando em cada nova cidadezinha a chegada da alegria e do sonho:

- Senhoooooras eeeee senhoreeeeees!

A verdade porém é que muitos de nós - senão todos - ficamos somente no sonho. Sem nunca sequer tentar realizar a façanha da nossa infância, crescemos para nossas vidas de adultos conformados na monocronia das nossas decisões tão sérias, e vivemos tristonhos para sempre.