domingo, 9 de janeiro de 2011

JARDIM INTERIOR




Nada me enternece tanto quanto os jardinzinhos proletários da cidade.
Jardins plantados com carinho e imperícia, onde o espaço, cada vez mais exíguo, obriga o dono a concentrar os seus muitos sonhos em poucos metros quadrados, misturando diferentes espécies de plantas, desde flores, trepadeiras e arbustos até legumes, verduras e frutas.
É tocante ver, plantados em latas de óleo e blocos de concreto virados boca acima, tufos de florezinhas esquecidas de outros jardins: margaridas, cravos, dálias, beijos, brincos de princesa, tudo bordejado de hortelãs, alecrins e poejos. No muro se pendura uma videira ou uma trepadeira de maracujás com as suas lindas flores roxas.
E os indefectíveis girassóis...
Ao passar por ali de manhã, certamente verei uma Dona Maria de aventalzinho estampado e de lenço na cabeça, pelejando com os seus antúrios, arrancando moitas de erva daninha, aguando suas plantas com a água que lavou a calçada. Ou verei um Seu José de bermudas e chinelos, barrigudinho e de cabeça branca, suando enquanto ajeita um canteiro de cebolinha em volta das roseiras. Ou pendurando o bebedouro dos passarinhos num ramo de romã.
De tardezinha, o casal estará sempre ali sentado num banquinho, esperando a noite chegar. Contabilizando o que fizeram de bom durante o dia, ou durante a vida. Ou só curtindo o jardinzinho, sem pensar em nada.
foto: Vincent Van Gogh