quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A AJUDA


Waldemar, o inquilino, teve um surto e começou a atirar.
Empunhava, sem qualquer maestria, um Taurus calibre 32, que ele tinha arranjado sabe-se lá como e com quem. Atirava a esmo, ou antes mirava alguma visão estapafúrdia, porque gritava: "Toma, morre! Quero ver agora, vagabundo!" - como se quisesse atingir alvos móveis, que fugiam e que se escondiam atrás da pilha de tijolo e do monte de areia recolhidos no quintal da casinha alugada, naquela ruela sem saída. Pá, pá, pá!
Quem diria. Logo o Waldemar, sempre tão pacato, sempre tão cumpridor de seus deveres, endoidara de vez. Pá, pá, pá! Os tiros ecoavam secos, apavorando a vizinhança. A família abrigou-se dentro de casa, todos abraçados e bem longe da porta e das janelas. A mulher chorava, agarrada às crianças pequenas, mais um de colo e um na barriga, quase nascendo de nervoso. A sogra, recuperada do susto inicial, teve a idéia de chamar a polícia:

- Eles disseram que já vêm. E ficaram esperando dentro de casa, encolhidos de pavor.

Era a primeira vez que Waldemar endoidava daquele jeito. Moravam ali há mais de dez anos, ele era bom inquilino, bom marido e ótimo pai. Saía de casa cedinho e era sempre visto caminhando apressado e de cabeça baixa para o ponto da esquina, onde pegava o ônibus rumo ao trabalho. Respondia aos cumprimentos com um aceno, sempre muito caladão, era verdade.

Nos últimos tempos, entretanto, Waldemar começara a ver coisas e a ouvir vozes. Checava com os atônitos familiares:

- Você tá ouvindo? Você viu aquele? Ninguém ouvia nada. Ninguém via nada. Era coisa da cabeça do Waldemar.

- Interna ele, comadre. Isso pode piorar...

As pessoas pensavam que era fácil. Não dependia dela, tinha que partir do médico, ninguém podia trancafiar ninguém assim num hospício, sem mais nem menos, só porque uma comadre aconselhou. Mas daquela vez tinha o revólver!

- Polícia! a sirene da guarda finalmente apitou no portão. Silêncio total.

- Polícia! repetiu o guarda, dando ordem de prisão. Mãos pra cima!

Waldemar tinha carregado de novo a arma, e dessa vez sua fúria dirigiu-se para os policiais, que se jogaram para trás da viatura. O tiroteio tomou forma, pediram reforços. A calma ruazinha sem saída virou um forfé.

O impasse já durava uma meia hora, quando apareceu o Juventino, de bermuda e chinelão de vão-de-dedo, e foi logo se apresentando. Era o inquilino da casa 23.

- Deixa comigo que eu falo com ele. Nós semos amigo. E já foi entrando e falando bem alto, para o amigo escutar:

- Ô Seu Wardemá, aqui é eu, o Juventino. Pode vim que os cara tão tudo espichado. Me deixa eu ver essa arma, Seu Wardemá? E segurou o revólver do amigo, para que os policiais se acercassem.

Conduziram o surtado ao hospital, onde permaneceu em observação. Fez todos os exames, toma remédio de faixa preta, mas hoje tem uma vida normal - graças à ajuda do amigo Juventino, o morador da casa 23.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A CURA


O médico do interior já tinha perdido a esperança de curá-la, e sugeriu que ela viesse à capital se tratar. Quem sabe? Era uma dessas doenças insidiosas e gravíssimas, cujo nome éramos até proibidos de pronunciar. Aquelas doenças malditas, que corroem a pessoa por dentro, debilitando-a e causando uma fraqueza sem trégua. Era quase a morte, conforme parecia.
A família se cotizou, juntaram algum dinheiro e a menina, escorada na mãe, encetou a viagem até a cidade de São Paulo.
Aqui chegando, foram pedir abrigo na nossa casa, num bairrinho da periferia. O tratamento ia ser longo.

Naquele tempo, a hospitalidade era regra, e não exceção. Todo mundo se unia diante das adversidades: doença, morte, funeral, eram acontecimentos familiares, que ocasionavam adaptações na vida doméstica. Ninguém ficava em hotel, ninguém morria em hospital, tendo família. Era um colchão a mais que aparecia, eram cobertores tirados da arca, pratos que se somavam à louça da casa, tudo em silêncio.

A janta foi uma festa: fazia tanto tempo que a gente não se via, tinha tanta coisa para contar, tanta coisa para perguntar sobre os que ficaram na roça. Quem casou, quem teve filho, quem morreu. Eu brincava com a minha prima, feliz da vida.
A conversa se estendeu até perto das onze horas, quando
alguém lembrou que a menina devia estar cansada, coitadinha, porque já era tarde, onde já se viu. Na segunda-feira bem cedo ela ia começar o tratamento. Melhor apagar a luz, melhor dormir.

- Dorme com Deus pai, dorme com Deus mãe. Dorme com Deus tia, dorme com Deus, prima. Amém, amém, amém, dorme com Deus você também...


Elas se instalaram numa cama de solteiro, ao lado da minha, deitando uma para os pés e a outra para a cabeceira. Cadê dormir, entretanto? Na semi-obscuridade do quarto, eu fiquei olhando para a minha prima e escutando a sua respiraçãozinha difícil. Com os olhinhos arregalados, ela observava tudo ao redor, em silêncio: a casa estranha, os desenhos no teto, a Nossa Senhora na folhinha pendurada na parede. Tinha medo.
Então eu lhe estendi o meu gatinho de pelúcia, o Frederico. Velho, amarfanhado, a pelagem marrom já raleando aqui e ali, um olho faltando, Frederico era o meu refúgio, especialmente nas noites como aquela, em que o sono não vinha. E que as sombras das árvores dançavam lá fora, desenhando fantasmas no vitrô. Toma, eu falei, entregando-lhe o gatinho estropiado. Pode segurar o Frederico, se você quiser. E a menina sorriu no escuro, aquele sorrisinho tímido e bonito, de cortar o coração.
Dormimos: eu sonhei os sonhos normais de gente sadia, mas ela deve ter sonhado com a cura, porque o longo tratamento finalmente a curou.

foto: Irisz Agócs

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A NUVEM NEGRA


Tudo nessa vida é questão de ponto de vista.
Para o otimista, que vê sempre o lado claro da existência, o copo certamente estará sempre meio cheio, e nunca meio vazio. Os problemas de qualquer ordem ou natureza, sejam eles pequenos, médios ou grandes, serão encarados como desafios ou como oportunidades de crescimento espiritual, intelectual, ou seja lá o que for. No fim tudo dará sempre certo, e o otimista dirá, exultante: "Eu não falei?"
Já, para um pessimista inveterado como o Freitas, tudo, mas tudo mesmo no universo existe no único e exclusivo intuito de tornar a vida mais difícil para ele. Sob a negra nuvem de fumaça que o acompanha (feito aquelas que se formam quando se queimam pneus) estará sempre tudo dando muito errado, tudo estará ocorrendo muito atrasado, muito adiantado, será tudo muito pequeno, muito grande, enfim, tudo errado. Ele também dirá, mas pelo motivo inverso: "Eu não falei?"
Exagero? Não creio...

Era na última semana de dezembro, e a firma tinha dado férias coletivas. O Freitas, que fazia anos não saía de São Paulo, tinha feito  planos para aquela viagem com bastante antecedência. As malas já estavam no porta-malas do carro desde a véspera, tudo nos conformes: máquina fotográfica, protetor solar, repelente de insetos, boné, chinela havaiana... Trajava a tradicional fantasia de turista paulistano: bermudona xadrez, camisa estampada de grandes flores e  tênis de marca. Óculos rayban, claro.
Tudo muito bem, até aqui.
Bem demais, pensou. Resolveu dar mais uma checadinha no carro, só para ter certeza. Pneus OK, freios OK, luzes OK, extintor OK... Já tinha verificado tudo isso umas dez vezes, mas sabe como é. Ansiedade.
Foi então que começou a dor. No meio do peito, fininha, chatinha, insistente. O Freitas achou aquilo esquisito, aquele embrulho no estômago, aquele aperto na garganta, o suor. Sentou num caixote na garagem, quem sabe a dor passava. Não passou, e começou a ficar cada vez mais forte. Sentia que a dor subia e que amortecia o queixo, migrava até o braço. Não conseguia mais respirar direito. Chamou a mulher, num gemido.
Foram voando para o PS, onde um medicozinho boliviano muito solícito deu o veredito implacável: infarto do miocárdio. Internado às pressas, nem teve tempo de trocar de roupa, destoando muito dos outros pacientes, naquela sua anacrônica fantasia de havaiano.
Quando conseguimos vê-lo, muitas horas depois, o Freitas só disse, coitadinho, entre os tubos e os cateteres que apontavam de dentro daquela baita nuvem negra: "Eu não falei?"