sábado, 27 de outubro de 2007

TEMPO DE GOIABA


















Até aquela noite, ela tinha aguentado tudo: os gritos, as surras, a humilhação. Ela era casada...

Muitas e muitas vezes amanheceu com um olho roxo e botou o cabelo por cima, para esconder o hematoma. Mentiu que caíra encerando o assoalho, uma vez. Que o dente era um pivô mal feito, e que o quebrou comendo pão.
Aguentou tudo firme, sem gritar e nem dar a entender para o povo que era infeliz no casamento, que sofria maus-tratos dentro da sua própria casa. Que era vítima do próprio marido.
Na primeira noite, ao chegar em casa, foi violentada. Conheceu as verdades do sexo na marra, a poder de tabefe. Quieta, bufando no escuro horroroso do quarto. Ela era casada...
Foram anos e anos assim: apanha, serve o homem, apanha de novo, serve e cala a boca. Quanto tempo? Uma eternidade tão triste e tão longa que já nem lembrava mais o que era sorrir.
Mas, naquela noite, sabe-se lá por quê, sentia um negócio esquisito no peito, feito um rosnado de bicho acuado. Naquela noite aconteceu o que não era para acontecer, mas que já era de se esperar.
Naquela noite, mais uma vez ele chegou em casa bêbado, fedendo a bebida e a perfume de bordel, a rosas murchas e pó-de-arroz barato. Jogou em cima da mesa um pacote com carne de porco:

- Faz aí, anda!

Ela ficou um bom tempo olhando o pacote. Pensou na goiabeira da casa da mãe e na própria infância. Pensou que já era tempo de goiaba e que elas deviam estar maduras, de abrir na mão feito caixinhas de jóias. Lembrou da mãe, das irmãs pequenas e da vidinha até bem feliz que ela já tivera, um dia .
Um cheiro gostoso de goiaba começou a inundar a casa inteira, vindo da noite quente lá fora. Ela abriu a porta da frente e começou a andar sem rumo na noite escura, sem olhar para trás. Nunca mais voltou.

foto: "Dog Woman" - Paula Rego

2006

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

PEIXE E PÃO


Não se sabe de onde surgiu o tema aziago, só que surgiu de repente, azedou a conversa e deu no que deu: uma dirigindo o carro feito doida, com os altofalantes do Ipod enterrados na orelha e a outra com o nariz grudado no vidro da janela, sem ver nada. Que típico.
Nem viram as casas antigas que passavam, nem os manacás floridos na descida da serra. Nem notaram os treze túneis da Imigrantes ou as pontes sobre a mata verdinha. Nem sentiram o perfume enjoativo dos lírios brancos do manguezal ao redor da refinaria.
Quando chegaram à praia, chuviscava, daquela garoinha emburrada da orla, que faz com que a roupa grude no corpo.
Havia amanhecido.
Sentadas nas pedras da ponta da praia, olhando o mar e as gaivotas, eram duas estátuas enfezadas. Ela, tão linda, tão loira, tão escancaradamente jovem. Pena o beicinho... A outra, uma múmia encharcada.

Lá pelas tantas, o sol já alto no céu, resolveram almoçar ali mesmo, no meio dos pescadores, das madalenas e dos cachorros vira-latas. Peixe e pão, prá que mais?

O importante é que então ela já sorria, e voltaram a se falar.

- Adoro isso. O mar e tal...


foto: José Roberto