sábado, 3 de maio de 2008

A GENTE SAI DO SERTÃO, MAS O SERTÃO NÃO SAI DA GENTE...


"A gente sai do sertão, mas o sertão não sai da gente"

(dito por um grande amigo)



O sertão, com tudo aquilo que ele tem de tristonho, de aviltante, de constrangedor, de neurotizante, fica grudado na sola da nossa alma, para sempre, e não há prozac nem divã que arranque.
A lembrança vergonhosa daquele sapatinho de escola velho e apertado, ou daquela roupinha de segunda-mão remendada no cotovelo, herança do irmão mais velho. Ou então daquele parente rico e nojento, que morava nos quintos-dos-infernos, mas que vinha de lá, todo ano - o filho da mãe - , só para arruinar ainda mais o nosso já tão mixo Natal com a sua presença inoportuna, e com a descarada exibição daquela fartura toda, para nós simplesmente inatingível. Sapatos novos! Roupa boa! Brinquedos...
A eterna adaptação de tamanhos, formatos e utilidades, a invenção da reciclagem quando o mundo nem sonhava com essa palavra. O serzido, a marrafa, a prega, o remendinho humilhante. A garrafinha, a latinha, a caixa velha, o papel de embrulho amarfanhado, reutilizado mil vezes. "Tudo serve, tudo se aproveita, nada se joga fora".
Nem as mágoas, nem a inveja, nem o despeito.

A gente sai do sertão, tudo bem: trabalha de dia, estuda à noite, dorme pouco, come da marmita perigando azedar. Economiza, guarda, poupa, investe.
Sobe na vida.
A gente supera a dor daquela hora íntima, a vergonha da constatação da própria miséria. Como quando, ao
assumir um posto mais elevado na vida, a gente vê que não tem a roupa adequada, não tem um calçado decente, não tem as malas apropriadas. Compra tudo a prazo, escora bem a cara e vai em frente, porque atrás vem gente.
Na verdade, o que a gente não tem é uma história pessoal apropriada, porque viveu sempre uma vida de gambiarras, tentando burlar a seleção natural, e o sertão, que teima em ficar grudado na sola do sapato.

Um comentário:

João Eduardo Q. C. disse...

Dal, você é danada, minha amiga! Como você sabia que eu iria gostar desta nova blogada sua? Só porque eu piro na batatinha e viajo na maionese com minhas filosofadas? Kkkkkkkkkkkkkkkkk... ACERTOU EM CHEIO! Adorei demais este seu texto, um desabafo romântico diria, onde, mesmo com nossas vidinhas gambiarrentas e com nossas almas calçando botinas pra lá de surradas, ainda conseguimos manter uma certa integridade física e espiritual, com direito a um cantinho virtual pra sermos nossos próprios mediadores da luta entre o que somos e o que gostaríamos de ser; no meu caso e até pouco tempo atrás, fazia isso na base de Prozac + divã. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Ser pobre é uma merda, me atestam os meus carnês do Extra, Casas Bahia e os Mastercads e Visas.
Bem, agora eu vou almoçar minha sopinha de pedregulhos e meu bife sola-de-sapato. Tá servida? Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Chique no úrtimo!

Beijos e um ótimo sábado!

João Eduardo