
- Qu'as-tu fait, ô toi que voilà
Pleurant sans cesse,
Dis, qu'as-tu fait, toi que voilà,
De ta jeunesse ?
(Paul Verlaine)
É de manhã.
O velho vem andando, naquele conhecido passinho curto dos velhos. Desce a ladeirinha, dobra à esquerda na praça e senta-se ao sol, no mesmo banco de sempre.
Resfolegando, limpa cuidadosamente os óculos no lenço branco imaculado, e depois de colocá-los sobre o nariz, olha atentamente ao seu redor: reconhece os mesmos pombos cinzentos, os mesmos cachorros contidos pelas guias, as mesmas babás de uniforme impecável e as mesmas crianças brincando alegres no tanquinho de areia.
Fica ali sentado, uma eternidade, sentindo o sol quentinho nas costas e curtindo a ausência momentânea da dor. Quase canta.
Olha com enlevo um casalzinho de adolescentes que se beija, despreocupado. Para eles, certamente o tempo é uma entidade benéfica, uma ficção. O tempo não existe para quem é jovem, para quem ama e para quem se beija debaixo do sol.
Depois, num parênteses aberto por uns pardais espojando na terra, ele abre o jornal e lê as notícias sem pressa, iniciando a leitura do fim para o começo, como sempre fez. É o de sempre: um carro-bomba ali, um terremoto acolá, é o aumento do imposto, é uma nova CPI. Um artista casando, um artista se divorciando... O mundo vai ficando repetitivo.
Na manhãzinha gostosa de sol, o velho fecha os olhos e finge dormir. Lembra a vida de trás para a frente e da frente para trás. Momentos tristes, momentos alegres, amores talvez.
Finge tão completamente, que talvez durma de verdade. Talvez até sonhe!
foto: 'Man on a bench'' - ArtichokeHeart