quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O VELHO NA PRAÇA














- Qu'as-tu fait, ô toi que voilà

Pleurant sans cesse,

Dis, qu'as-tu fait, toi que voilà,
De ta jeunesse ?

(Paul Verlaine)


É de manhã.
O velho vem andando, naquele conhecido passinho curto dos velhos. Desce a ladeirinha, dobra à esquerda na praça e senta-se ao sol, no mesmo banco de sempre.
Resfolegando, o velho primeiro limpa cuidadosamente os óculos no lenço branco imaculado, e depois de colocá-los sobre o nariz, olha atentamente ao seu redor: os mesmos pombos cinzentos, os mesmos cachorros contidos pelas guias, as mesmas babás de uniforme impecável e as mesmas rosadas crianças brincando alegres no montinho de areia.
Fica ali sentado, uma eternidade, sentindo o sol quentinho nas costas e curtindo a ausência momentânea da dor. Quase canta.
Olha com enlevo um casalzinho de adolescentes que se beija, despreocupado. Para eles, certamente o tempo é uma entidade benéfica, uma ficção. O tempo não existe para quem ama e se beija debaixo do sol.
Depois, num parênteses aberto por uns pardais espojando na terra, ele abre o jornal
e lê as notícias sem pressa, iniciando a leitura do fim para o começo, como sempre fez. É o de sempre: um carro-bomba ali, um terremoto acolá, é o aumento do imposto, é uma nova CPI. Um artista casando, um artista se divorciando... O mundo vai ficando repetitivo.
Na manhãzinha gostosa de sol,
o velho fecha os olhos e finge dormir. Finge tão completamente, que talvez durma de verdade. Talvez até sonhe!
Ser feliz é só isso:
estar em paz, sem muita dor, sentado num banco de jardim, quando faz sol.

foto: 'Man on a bench'' - ArtichokeHeart