quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

SOSSEGA, LEÃO!















Homem corretíssimo, o Leão era chefe da seção, fazia anos.
Homenzarrão bem alto, empertigado e elegantão, usava, no entanto, uns apetrechos de décadas passadas, que lhe conferiam um certo ar anacrônico de cantor de tango, ou de cafetão bem educado. Aquele bigodinho fino, aquele cabelo engomado penteado para trás, o colarinho perfeito. No jeito de falar, então...

- Dona Júlia, queira por obséquio encerrar o relatório, sim ? Ou:

- Sr. Geraldino, queira por gentileza, encaminhar essa cópia ao Ilustríssimo Senhor Secretário, com a devida urgência, sim?

Era um verdadeiro lorde, não se discute. Até na rodinha do café, embora fosse inteiramente democrático, conservava-se sempre um degrau acima da turma, naturalmente. Ele jamais participava das piadas chulas que regularmente surgiam, nem das inevitáveis fofocas sexuais dos desocupados de plantão. Fazia de conta que não escutava, puxava outro assunto, às vezes fingia engasgar com o café e saía fora. Só tinha uma pedra que o Leão não conseguia contornar: a beleza feminina e, mais precisamente, a beleza do decote da Beatriz.

- Ah! o decote da Beatriz...


E o Leão era covardemente traído pela cupidez. Estacionando diante da mesa e do decote da escriturária feito um morcego, só apreciando, não ousava nem respirar, quem dirá mover-se, e muito menos falar! Muito a custo, depois da titubeada notória, dizia, macio:

- Do-dona Beatriz, lindo dia, não?

E virava no pé.
O Leão era tímido...
Dizem as más línguas que os dois finalmente ficaram amantes, já que eram ambos casados. Dizem ainda que, fora da repartição, o Leão atacava. Mas essa gente diz cada coisa...


Foto: Marcello Grassmann

6 comentários:

João Eduardo Q. C. disse...

Uma outra blogada sua tem o título, se não me engano, "A gente sai do sertão, mas o sertão não sai da gente". Outro dia, encontrei uma colega do RH da Sabesp onde eu trabalhei e ela trabalha ainda, e me vali desta máxima mudando o sertão por rh, porque vira-e-mexe presto uma consultoriazinha aqui e acolá mesmo tendo me livrado daquilo em 2002. Ficamos falando sobre o passado e ela me atualizou com o que aconteceu recentemente por lá; quem subiu 2 degraus e, ops, rolou escadaria abaixo, quem ficou com quem, quem era assim e ficou assado, enfim, quem acabou por trair sua conduta por um decote, por uma saia mais curta, por um macho-alfa da repartição... Mas, como você termina a sua história, essa gente diz qualquer coisa. Olha, Dal, e eu acredito. (Rs)

Bjs

Concha disse...

Bom dia!
Já tinha perdido a esperança de voltar a ler um post aqui em "Casos Ligeiros".
Foi uma ausência prolongada... mas, com um feliz regresso.
Dalva,Bem-haja!
A propósito, por cá o que não faltam são "Leões".

Raquel München disse...

Adorei a história!

Beijos!

Martín Bolivar disse...

Casos ligeiro o blog interesante.

Dona Sra. Urtigão disse...

Adorei. Retrato falado e vivo.

Suzi disse...

Ah, o Seu Leão! Figurinhas premiadas!
beijos!