
- Nem precisava, amiga! Mas...
E ela guardou o imenso tupperware de maionese na geladeira, prá não estragar. A geladeirona azul-clara antiga já estava bem cheia: patês, saladas, doces, salgados, refrigerantes. A carne do churrasco, que já estava no tempero de véspera, assava, e o seu aroma subia pelo ar. Os convidados começaram a chegar.
- Benhê, me atende lá a porta, vai! ela pediu ao marido, enquanto olhava algo no forno.
E foram chegando. A viela foi enchendo de carros: fora a família, veio o pessoal da Lapa, veio gente da Casa Verde, veio a turminha do serviço. Essa, nunca faltava.
- Opa! é nóis...
Música de fundo, um pagodinho suave. A moçadinha mais nova odeia, então foram se juntando em volta do computador, com seus headfones e seu rock-and-roll.
As rodinhas foram se formando, cada uma com seu assunto, cada uma com seu epicentro. Falavam de política, economia, de futebol, de mulheres, de moda, de literatura. Faziam fofoca sobre a gente do serviço, maldosamente:
- A Inês? Aquela lá já era! Também... quem mandou mexer com homem casado? O pior é que...
E dá-lhe papo, e dá-lhe comida. Veio a salada, veio a maionese, vieram os patês, veio a farofa, vieram as batatinhas. E veio, por fim, o churras!
- Eita, que o cheirinho dessa carne já 'tava me matando!
Lá pelas tantas, o Juvenal decidiu que ia na padaria, buscar cigarro e não sei mais o quê. Queria a chave do carro. A Bete, de rabo-de-olho, viu que ele já estava meio tonto.
- Vai a pé, Juvenal. A padaria é virando a esquina! E escondeu a chave do fusca no seio. Era capaz...
Contrafeito, o Juvenal saiu andando, com o passo realmente meio bamboleante. "Vai com ele, Tonho." mandou a dona da casa - e os dois foram, o Tonho e o Juvenal.
- Bela parelha! alguém observou, lá do fundão. Era o Jura, irmão do Juvenal, que ficou sozinho cuidando do churrasco. "Bela parelha, o Tonho e o Juvenal! Quer apostar como que agora me voltam os dois mais bêbados ?"
Não deu outra!
Foto: Blue Yonder