terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A CURA


O médico do interior já tinha perdido a esperança de curá-la, e sugeriu que ela viesse à capital se tratar. Quem sabe? Era uma dessas doenças insidiosas e gravíssimas, cujo nome éramos até proibidos de pronunciar. Aquelas doenças malditas, que corroem a pessoa por dentro, debilitando-a e causando uma fraqueza sem trégua. Era quase a morte, conforme parecia.
A família se cotizou, juntaram algum dinheiro e a menina, escorada na mãe, encetou a viagem até a cidade de São Paulo.
Aqui chegando, foram pedir abrigo na nossa casa, num bairrinho da periferia. O tratamento ia ser longo.

Naquele tempo, a hospitalidade era regra, e não exceção. Todo mundo se unia diante das adversidades: doença, morte, funeral, eram acontecimentos familiares, que ocasionavam adaptações na vida doméstica. Ninguém ficava em hotel, ninguém morria em hospital, tendo família. Era um colchão a mais que aparecia, eram cobertores tirados da arca, pratos que se somavam à louça da casa, tudo em silêncio.

A janta foi uma festa: fazia tanto tempo que a gente não se via, tinha tanta coisa para contar, tanta coisa para perguntar sobre os que ficaram na roça. Quem casou, quem teve filho, quem morreu. Eu brincava com a minha prima, feliz da vida.
A conversa se estendeu até perto das onze horas, quando
alguém lembrou que a menina devia estar cansada, coitadinha, porque já era tarde, onde já se viu. Na segunda-feira bem cedo ela ia começar o tratamento. Melhor apagar a luz, melhor dormir.

- Dorme com Deus pai, dorme com Deus mãe. Dorme com Deus tia, dorme com Deus, prima. Amém, amém, amém, dorme com Deus você também...


Elas se instalaram numa cama de solteiro, ao lado da minha, deitando uma para os pés e a outra para a cabeceira. Cadê dormir, entretanto? Na semi-obscuridade do quarto, eu fiquei olhando para a minha prima e escutando a sua respiraçãozinha difícil. Com os olhinhos arregalados, ela observava tudo ao redor, em silêncio: a casa estranha, os desenhos no teto, a Nossa Senhora na folhinha pendurada na parede. Tinha medo.
Então eu lhe estendi o meu gatinho de pelúcia, o Frederico. Velho, amarfanhado, a pelagem marrom já raleando aqui e ali, um olho faltando, Frederico era o meu refúgio, especialmente nas noites como aquela, em que o sono não vinha. E que as sombras das árvores dançavam lá fora, desenhando fantasmas no vitrô. Toma, eu falei, entregando-lhe o gatinho estropiado. Pode segurar o Frederico, se você quiser. E a menina sorriu no escuro, aquele sorrisinho tímido e bonito, de cortar o coração.
Dormimos: eu sonhei os sonhos normais de gente sadia, mas ela deve ter sonhado com a cura, porque o longo tratamento finalmente a curou.

foto: Irisz Agócs

6 comentários:

Larissa Bohnenberger disse...

Que linda história.

Uma pena que não vemos mais união e solidariedade nas famílias, hoje em dia. Muito pelo contrário. Tenho a minha aqui como um tenebroso exemplo disso.

Bjs!

Concha disse...

Encontros da vida,com alegria,e muita tristeza...
São laços familiares a se unirem na dor.
Um beijo

Cacau disse...

Dalva, você devia publicar um livro.
Adoro seus contos e poesias. Esse deu uma dorzinha no coração... imaginei o gatinho, o sorriso... ai!

José Doutel Coroado disse...

Meus agradecimentos por uma estória tão terna e sentida.

Marcantonio disse...

Por alguns minutos fiz parte dessa família, e a minha ternura reivindicava um desfecho esperançoso. Muito humano.

Um abraço

João Eduardo Q. C. disse...

Dalvíssima, quem teclou nesta blogada não foram seus dedos das mãos, mas os imateriais dedos do seu coração. Achei o texto a coisa mais linda, além é claro de saber que a menininha se curou. Viu só como um Frederico tem poder? Ele não deixou de ser seu gatinho estropiado de pelúcia, mas também pôde ser um alento, um prenúncio de que coisas boas aconteceriam.

Bom dia e uma ótima quinta-feira!

Grande beijo!