sábado, 8 de setembro de 2012

O CRITÉRIO DA FOME






Era o ano de 1969, uma pobreza abençoada. 

Eu vivia na margem da margem, sem ser marginal.  Mais um passinho e  seria uma sem-teto, mas acho que naquele tempo nem existia o conceito. 

Precisava trabalhar, já estava me preparando: cursava o Ginásio Industrial da Associação Cívica Feminina, hoje Colégio Olga Ferraz, no bairro da Água Branca, e à noite fazia o curso de "Dactilografia". asdfg asdfg asdfg asdfg,  lembra?

Era tudo muito simples.

Para se arranjar qualquer empreguinho,  digamos,  de auxiliar de escritório, tinha que ter "boa aparência", seja lá o que isso queira dizer, ginásio completo, e datilografia. 

Ter os documentos em dia, também:  diploma, RG, Título de Eleitor e Carteira Profissional,  Carteira de Reservista para os meninos. Ah, e duas fotos 3 x 4 se você fosse contratado. Chapa do Pulmão também, esse bando de tuberculosos enrustidos que nós sempre fomos...

Ainda não tinha internet. Recortava-se o anúncio da vaga de emprego nos classificados do jornal, perguntava para o fiscal no ponto de ônibus como é que se fazia para chegar na rua da empresa tal, e ia para a fila de candidatos, fazer o teste e, se aprovado,  a entrevista.

Meu primeiro emprego foi  na Rua Direita, no centrão de Sampa, mas não passei na experiência, e assim fui dispensada no primeiro mês. Foi um mês de muita privação, pois eu  só tinha dinheiro para comer um hotdog e beber um suco da maquininha.  Não existiam o vale-refeição e nem o vale-transporte,  mas eu tinha o passe escolar, a cartelona mensal comprada  num posto do Ministério da Educação e Cultura, na Galeria Prestes Maia, embaixo do Viaduto do Chá.

O segundo emprego já foi bem melhor. Graças à ajuda de um político, fui trabalhar numa editora no bairro da Luz, no setor de arquivos. O bom homem havia me arrumado dois empregos, para eu escolher. Escolhi o que tinha refeitório, porque não queria nem lembrar do cachorro-quente. A cozinheira da firma nos dava café da manhã, almoço e ainda guardava um pratinho de janta pra quem ia direto do trabalho pra escola. Coisa de mãe.

O terceiro emprego foi a glória! Fui ser telefonista no  setor de informações da CTB - Companhia Telefônica Brasileira, na Rua Sete de Abril.  Excelente refeitório! Salário melhorzinho, pude continuar meus estudos, pagar o cursinho pré-vestibular no Etapa, entrar na Universidade de São Paulo. Cujo bandejão sempre me sustentou.

Hoje eu olho para trás com ternura,  dou muito valor a todas aquelas experiências, e gosto de tudo que fiz. Eu não faria nada diferente, se pudesse voltar no tempo. Nada! 

E você?

foto: máquina de escrever - web

9 comentários:

José Doutel Coroado disse...

Cara Dalva,
depoimento interessante!
Já eu tentaria não fazer algumas coisas. A minha única consolação é que espero ter aprendido a não as repetir.
Abraço

vidacuriosa disse...

Coincidentemente sofri o mesmo que você. Tinha 17 anos em 1971, meus pais moravam em Bagé e eu vivia sozinho em Porto Alegre. Cursava o Científico à noite e morava na casa vazia até que fosse vendida. Não tinha dinheiro nem para a passagem nem para comida. Filava almoço na casa de uma tia, mas tinha vergonha de ir todos os dias. Fiz curso de datilografia, arrumei emprego temporário por três meses em uma livraria. Comi depois no Restaurante Universitário em troca do recolhimento de copos nas mesas. Mais tarde,trabalhei em banco para pagar pensão e cursinho. Havia fartura. Fartava tudo, roupa e comida. Entrei para faculdade pública em 1974 e arrumei estágio em jornal, formei-me só em 1979 quando já era funcionário da emnpresa jornalística, na qual fiquei por sete anos. Também olho com orgulho (agora) tudo o que passei e alegro-me por não ter sucumbido. Abrs

Clarice disse...

Por coincidência, esta seana andei cutucando algumas memórias de infância e adolescência. Talvez para reciclar ideias e considerar fechado o baú.
É tudo muito doce ou doloroso.Não tem escapatória.

A máquina bem que tentou me disciplinar, mas depois de um curso que parecia que estava amarrada, dedilho o teclado com 3 ou 4 dedos. rapidíssima, mais do que com a mão toda, pra desespero da freira que bufava perto de mim.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Interessante este seu post. Gostei.
Desejo que a amiga esteja bem.

Quero desejar-lhe e a sua Família
um FELIZ NATAL.

Beijinhos
Irene Alves

Mara disse...

Cruzei-lhe o caminho há quase um ano. Sentamos no mesmo banco. Enquanto minha linha deslizava pela agulha trocamos algumas palavras. Guardei o endereço do teu blog e só hoje me deparei com ele e vim aqui dar uma espiada.
Gostei do seu jeito de escrever e de espiar o mundo.
Um feliz 2013 pra ti, com mais cores, mais amores...
bjs

ONG ALERTA disse...

Tudo mudou muito rápido....beijo Lisette.

Clarice disse...

Na real acho que a gente nem tinha noção da dureza. Ia levando, feliz da vida, sem dúvida, muito embora de vez em quando pintasse aquele nó. Olhar pra trás dá uma sensação de coisa cumprida, de lutas vencidas. Hora de deitar na rede, né?

irene alves disse...

Amiga desejo que esteja bem.
Venho convidar a visitar o meu
blogue
http://sinfoniaesol.wordpress.com
que acaba de completar um ano.
Beijinhos
Irene Alves

José María Souza Costa disse...

Passei por aqui lendo, e, em visita ao seu blog.
Eu também tenho um, só que muito simples.
Estou lhe convidando a visitar-me, e, se possível seguirmos juntos por eles, e, com eles. Sempre gostei de escrever, expor as minhas idéias e compartilhar com as pessoas, independente da classe Social, do Credo Religioso, da Opção Sexual, ou, da Etnia.
Para mim, o que vai interessar é o nosso intercâmbio de idéias, e, de pensamentos.
Estou lá, no meu Espaço Simplório, esperando por você.
E, eu, já estou Seguindo o seu blog.
Força, Paz, Amizade e Alegria
Para você, um abraço do Brasil.
www.josemariacosta.com