terça-feira, 14 de agosto de 2012

A tempestade


Pendurei meu casaco e meu guarda-chuva no gancho,  sentei na cama de baixo do  beliche com a  mala no colo e olhei ao redor. A cabine era confortável,  tinha duas vidraças estreitinhas cobertas em lona parda, vedando a noite chuvosa lá fora. 
Nas outras camas, ressonavam pessoas estranhas, viradas para a parede,  dormindo ou fingindo dormir. Ninguém estava a fim de conversar, era evidente. Deitei e imitei os demais, virando também para o canto.
A insônia, entretanto, me fez entreabrir a cortina, um fiapinho de luz não faria tanto mal. A paisagem que passava rápida lá fora, entretanto, era tenebrosa demais! As árvores negras se sucediam sacudindo-se e retorcendo os galhos ao vento, enquanto relâmpagos acendiam o céu e mostravam os precipícios na borda da estreita linha pela qual o trem corria. Durante os clarões era possível perceber  o quanto a nossa vida era frágil e o quanto corria riscos, equilibrando-se trepada na beira do abismo daquele jeito. Mas os outros passageiros dormiam, ou fingiam dormir, indiferentes.
E o trem seguia, rompendo a tempestade, chacoalhando os vagões feito um rosário de caveiras. O único ruído era o seu tloc tloc nos trilhos: trovões certamente ribombavam lá fora, mas não logravam romper a vedação das vidraças. Só se viam os relâmpagos medonhos, cortando o céu de lado a lado.
Eu não sei porquê, mas foi me dando um aperto esquisito no peito. Aquela chuva, aquela correria do aço rasgando a noite no meio, aquelas pessoas mudas...  Eu senti medo.
Medo de estar viajando no tempo, numa outra vida minha lá atrás, de ainda estar no tempo do golpe. De ser alguém que fugia de alguma coisa, sem saber para onde aquela estrada estaria me levando. Nem se eu conseguiria chegar ao meu destino a salvo, ou se teria que fugir para sempre.  Aquilo foi me afetando tanto os nervos que tive que levantar e sair da cabine, para ver se havia gente acordada,  escutar vozes, saber onde estávamos, talvez perguntar as horas.
No corredor havia um balcão, com um abajurzinho aceso, onde um guarda sonolento lia o jornal.  Era pouco mais das duas, e a viagem ainda estava no meio. Chegaríamos na capital por volta das oito da manhã,  ia depender da chuva, e de outras tantas condições igualmente aleatórias, me explicou  a custo o guarda sonolento. 
Seria o caso de fumar um cigarro, mas lembrei que eu havia largado, então voltei para a cabine, evitando olhar a chuva lá fora. Tentaria dormir.

foto: Centro Cultural do Cabula