Eu não. Com muito custo lembro das duas coisas mais remotas da minha vida. E ainda às vezes até duvido delas, pois podem nem ser uma lembrança minha, pode ser que alguém tenha me contado. Fiapos!
Os bois...
A minha primeira memória são bois envoltos na poeira da rua.
Eu teria então uns quatro de idade, e estava sentada no primeiro degrau de uma escada muito alta (tudo era então tão grande) na frente da nossa casa, lá em Minas.
Ao meu lado, a minha avó, de roupa preta e lenço preto na cabeça, me dando cana em pequenos toletes muito doces.
Foi então que apareceu o primeiro boi, de uma grande boiada conduzida por homens de chapéu largo na cabeça.
Era um boi medonho. Ele tinha uma cara grande marrom da cor da terra da estrada, e o focinho úmido bufando: eu vi o olho do boi me olhando.
Foi coisa de minuto, minha avó me puxou escada acima e ficamos lá olhando aquela multidão de lombos suados passando, passando, interminável, enquanto a poeira da estrada subia e se alastrava.
As rosas...
Então eu já tinha uns cinco para seis anos, e já era no porão que alugávamos em São Paulo, na Rua Domingos de Morais. Tinha um jardim de roseiras velhas muito altas, de tronco grosso e espinhento, na porta da cozinha.
O sol, batendo nelas contra o muro branco, formava desenhos de sombras dançantes. Sentada num degrau, eu cheirava o ar perfumado de rosas e de feijão cozinhando, enquanto sondava as formigas cortadeiras andando em fila indiana e carregando pedacinhos de folhas. E escutava as abelhas zumbindo em volta das rosas.
O mundo mais recente parece que também já está sendo envolto numa espécie de torvelinho, uma névoa, prestes a desaparecer. Parece que eu tenho que lutar de alguma forma - talvez escrevendo? - porque mesmo essas cenas de agora também podem a qualquer momento se apagar. Deletando o que eu fui, e o que eu sou.