quinta-feira, 30 de agosto de 2007

FAZENDA IMAGINÁRIA















Dos oito filhos, Bruno foi o que ficou junto do pai, ajudando no balcão. Não quis casar.

Acordava bem cedinho e acendia o fogão de lenha, coava o café, punha o feijão para cozinhar. A sua bulha invevitável acabava acordando o papagaio de estimação, que matracava no poleiro:

- Louro, dá o pé!
'Cê quer café, louro?


No seu quarto de solteiro, Bruno guardava uma caixinha de madeira trancada, com umas moedas muito antigas, do tempo do Império, que ele nos mostrava de vez em quando, muito orgulhoso. Num canto do quarto, o velho violão que ele quase nunca tocava, a não ser quando recebia o seu único amigo, o Zico. Então ele tocava - e tocava bem! - e cantavam os dois juntos umas modinhas antigas falando de abraços apertados, de suspiros dobrados e amores sem fim
.
Quando seu irmão mais velho morreu num desastre, o Bruno não aguentou o golpe, enlouqueceu.
Durante o velório ele, ficou parado num canto da sala, com uma tarja preta no ombro. Mudo acompanhou o enterro. Voltou para casa ainda em silêncio, entrou no quarto e ficou sentado na beira da cama de solteiro, olhando as moedinhas da caixa.
Desde então o comportamento do Bruno começou a mudar. Parou de ajudar na venda, começou a beber, não se alimentava direito, andava pelas ruas a desoras, amanhecia nas calçadas. Imaginava coisas e de vez em quando escutava um sino misterioso tocando no meio da noite. Então ele acordava a casa inteira para escutar, mas ninguém ouvia nada!
E assim foi indo...

Uma vez ele acordou inquieto no meio da madrugada e começou a arrumar a mala, dizendo que ia fazer uma viagem para regularizar uns documentos da sua fazenda. Mau sinal: se o Bruno não tinha dinheiro nenhum (a não ser aquelas pratinhas velhas da caixa de madeira), ia lá ter fazenda? A família estranhou, mas ele dava detalhes. Falava da casa branca com as muitas janelas pintadas de azul, das mangueiras plantadas, do curral, do gado solto nos pastos e da imensa roça de milho, da plantação de cana e do algodão florindo... afinal onde era essa tal fazenda?

- Mato Grosso!

Viajou e nunca mais voltou,
deixando para o amigo Zico o papagaio, o violão e a caixinha de moedas.


foto: Marcelle Franco Ferreira


2005



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