sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A CASA DO MEU AVÔ

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A casa do meu avô tinha uma sala muito grande, de tábuas largas e já meio afundadas pelo passar do tempo. 

No meio da sala, havia uma mesa escura, com algumas cadeiras estofadas.  Num canto, uma grande cristaleira, sem dúvida o móvel mais valioso da casa, onde ficava uma compoteira de vidro, alguns bichinhos de louça e uma garrafa amarela de licor com meia dúzia de copinhos da mesma cor. Sobre a cristaleira, o rádio, grande e importante.  Noutro canto, a bilha de água fresca sobre a mesinha alta enfeitada com um paninho de crochê.
Nas paredes, quase junto do teto, ficavam pendurados os sisudos retratos de avós e bisavós, homens de bigode grosso e mulheres de queixo duro, cujo olhar nos acompanhava pela sala, onde quer que a gente andasse.

Da sala partiam as portas para os quartos e para a cozinha de paredes escurecidas pela fumaça do fogão de lenha. Ali, empilhadinhos no velho guarda-comida, havia uns pratos muito antigos, de florzinhas azuis, uns canecos de louça e só.  Ainda não tinham chegado os eletrodomésticos. Latas de mantimentos muito bem ariadas resplandeciam no alto das prateleiras: arroz, feijão, açúcar, café.

Na janela da cozinha, a gaiola do papagaio.

Um cômodo grande servia de depósito para a venda do meu avô: ali conviviam em franca anarquia cachos de banana, garrafas de pinga curtida, escuros rolos de fumo, panelas e tachos de cobre, tecidos baratos, botinas jeca-tatu e alpargatas, bem como as folhas de rapadura e goiabada embrulhadas em palha e as linguiças pendendo da corda. Era uma balbúrdia de cheiros doces e honestos que não se definem com palavras, mas que continuam vivos na alma da gente, anos e anos depois.
No alpendre fresco havia antúrios e samambaias, uma dama-da-noite plantada numa lata grande de óleo e um banco onde a gente se sentava, de tarde, para olhar a rua e ver a noite chegar.

Na calçada, um jasmineiro entojado, que nunca se dignou a dar flor .

Um comentário:

João Eduardo Q. C. disse...

Nossa, essas fotos nas paredes davam medo e, convenhamos, o povo fotografado era de uma fotogenia lamentável, né? E aquelas retocadas à tinta colorida então!? Meu Deuzinho do céu, nunca vi uma com alguém sorrindo nelas; coisa medonha. (Kkkkkkkkkkkkkkk...)
Agora, cheiros e sabores eu tenho muitos registrados no meu hard disk. Às vezes, sinto cheiros tão peculiares como os anarquicos cheiros da venda do seu avô, que em poucos segundos já volto no tempo. E cristaleiras... Como elas eram lindas!

Beijão!

João Eduardo