sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O CHICO DOMINGUES


Chico Domingues, o marido da Cota, era sossegado demais. Não havia nada nesse mundo de Deus que o fizesse andar mais ligeiro, abreviar um caso, e muito menos correr.

Queria vê-lo contente era no meio de uma roda de gente, numa vendinha de beira de estrada, dessas umas aonde o freguês apeia e amarra o cavalo para comprar aguardente, rapadura, tecido, espelhinho, pente, panelas, querosene, de tudo. Ele ia à venda fazer suas comprinhas mas também para prosear. Costumava chegar de tardezinha, com a viola no ombro e um embornal amarrado no arreio. Bebia a sua pinguinha devagar, sem ficar tonto, só para limpar a garganta, entende?
E vai e vem, e vai e vem, uma modinha puxava outra, uma pinguinha puxava outra... Se tivesse uma sanfona, então... Aí é que ele amanhecia na venda!
E foi isso mesmo que aconteceu no dia em que a Cota, mulher do Chico, sentiu que era chegada a hora dela:

- Ai, minha Nossa Senhora do Bom Parto!

Chico, acocorado na porta da casa, enrolava um cigarrinho de palha. Fechou e guardou carinhosamente o canivete na cinta, colocou o pito atrás da orelha, depois perguntou:

- Que foi, Cota?

Era o filho querendo nascer. Arreou o cavalinho amarelo e rumou para a vila, chamar a parteira.

- Vai logo! gemeu a mulher, nas dores.

O negócio é que, no caminho da casa da parteira, ele passou na frente da venda, onde uns tropeiros tinham achado de começar uma rodinha de viola e sanfona. Para quê! Chico achegou-se, curioso, aceitou uma pinguinha, não dava para recusar. E aí foi uma pinga, mais outra, uma modinha, mais outra... quando quer ver já era de noite, e parteira que é bom, nada! De vez em quando, para não dizer que tinha esquecido da obrigação, Chico Domingues lembrava:

- Ih! Coitadinha da Cota, heim? - e tocava mais uma modinha...

fev 2007

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