sábado, 8 de setembro de 2007

MEU GATO


Num dia frio e cinzento como hoje, abandonaram o gatinho aqui na porta da minha casa: uma bolinha preta que esganiçava, sem forças nem sequer para miar.

Eu o recolhi, é claro, e o embrulhei numa blusa velha de lã. E, apesar de ter jurado nunca mais ter animais de estimação, eu tratei dele com mamadeira, até ele começar a comer comida de gato.

Naquela hora eu esqueci de tudo, da trabalheira que eu iria ter, do preço da ração, da sujeira da caixa de areia, dos arranhões inoportunos, da batalha contra as pulgas e da miadeira no meio da noite. Eu só vi aqueles dois olhinhos remelentos me olhando, e aquele bichinho preto me implorando para ser meu.

Não resisti.


Ali mesmo no portão, nasceu entre nós um amor incondicional, daqueles que não vêem cara nem coração e que não escolhem hora ou lugar.


Eu amo o meu gato pelo que ele é: um gato preto chato e altivo, pedante, livre, exigente e interesseiro como só um gato tem a coragem de ser. Eu tenho certeza de que ele me ama também, mas a seu modo.


Entre nós nasceu também uma confiança inabalável no sentido da palavra "sempre" e na verdadeira permanência de certas coisas: eu sei que ele sai à noite para singrar outros mares de loucura, mas sei que ele sempre volta. Ele também sabe que eu sempre estarei aqui, esperando, que haverá sempre água limpa no pote e que sua tigelinha de ração estará no mesmo cantinho do chão da cozinha.


Como agradecimento, eu sei que ele só vai se dignar a roçar o corpo inteiro nas minhas pernas, e depois vai deitar enroladinho na sua poltrona predileta, e dormir o sono esplêndido dos gatos.

3 comentários:

Ana disse...

mestra!
os gatos são inspirativos!
seja na prosa ou em verso.
bj

Martín Bolívar disse...

os gatos som un poema.

João Eduardo Q. C. disse...

Nunca senti uma vontade louca de ter um gato; prefiro os cães. Mas, a capacidade da maioria dos animais, ainda na tenra idade, de olhar um humano e passar a tê-lo como mãe ou pai, me emociona pra valer!
O Wolfgang é um gato de sorte! Que bom, Dalva, que você pôde olhar para ele tão incondicionalmente como ele te olhou.

Beijos,

João Eduardo