sábado, 1 de setembro de 2007

SALA DE ESPERA


Quando eu era mocinha nova  comecei a trabalhar como recepcionista no consultório de um cirurgião plástico. O servicinho era fácil, era só atender o telefone, marcar as consultas na agenda e receber os pacientes.


A clientela era composta de gente bem de vida: algumas atrizes de cinema e TV, umas gringas ricaças, muito refinadas. Na maioria...

Elas chegavam, muito grã-finas, com as suas jóias, suas roupas de griffe e seu perfume francês, e sentavam-se na sala de espera, folheando revistas. Antipáticas, algumas nem sequer me  cumprimentavam, me ignorando como se eu fizesse parte da mobília.

Na primeira consulta, o médico as entrevistava, solicitava exames de laboratório e, quando obtinha os resultados, agendava a a cirurgia, fotografando-as primeiro, para poder comparar o "ANTES" e o "DEPOIS". Depois da operação, a paciente era novamente atendida no consultório, para fazer curativos, retirar algum ponto, verificar o andamento da cicatrização, cuidadosamente. Era um bom médico, conceituado.

Numa segunda-feira, porém, chegou no consultório uma mulher morena, bonitona, mas exageradamente maquilada e trajando umas roupas muito espalhafatosas, parecendo uma prostituta. E era mesmo.

Estava abaladíssima e, conforme declarou diante das outras pacientes atônitas, ela era puta sim, ganhava a vida trabalhando na noite sim -  e daí? -   e tinha vendido um fusca quase zero para pagar sua cirurgia plástica de mama. E não estava nem um pouquinho satisfeita com o resultado:

- Olha só a merda de serviço que esse filho da puta fez! Olha só essa merda! Não está uma bosta? Pode falar, menina!

Ela levantava o bustiê, mostrava os seios, berrava palavrões, assustando a madame antipática, que parou de folhear a revista. Eu, roxa:

- Senhora, o doutor já vai atendê-la, só ele é que pode dizer para a se...

- O cacete menina! Olha isso aqui gente! Esse filho da mãe vai ver só. Ou ele conserta essa merda ou eu ferro ele. Ah, se ferro...

Ela havia feito uma cirurgia para redução dos seios, que eram imensos e que, além disso, tinham ainda uns pelões horríveis nos mamilos. Ficou até bom, comparando-se as tais fotos anteriores e posteriores, mas a questão é que os seios da coitada estavam mesmo muito assimétricos. Um olhava para o Oiapoque e o outro, despinguelado, olhava para o Chuí, sabe como é?

- Eu vou na televisão, eu vou no rádio, eu vou no inferno, mas ele vai consertar isso aqui, e eu não vou pagar nem mais um centavo. Nisso, o médico chamou:

- A próxima!


Eu não fiquei sabendo se o cirurgião operou de novo ou se não operou, se ela pagou pela cirurgia ou se não pagou, ou que diacho foi que os dois conversaram lá dentro. Só sei que ela saiu calminha, calminha.

- A próxima!

E a grã-fina antipática entrou, meio com medo. Bem feito!

foto: boneco articulado, web

2005

Um comentário:

Anônimo disse...

ler todo o blog, muito bom