
Papagaio é um bicho esperto. O nosso era um gênio.
Trazido bem pequenininho do norte, por um caminhoneiro, o louro foi criado com miolo de pão molhado dado no bico e era como se fosse alguém da família. E eu já digo era, porque o infeliz já não está mais entre nós: foi covardemente assassinado por um tal de Ico, um cachaceiro. Pois é.
De primeiro, o louro ficava na janela da cozinha, zanzando num poleiro feito de cabo de vassoura. Mal o dia clareava, ele despencava a falar, interesseiro, com a sua voz esganiçada:
- Dá café pro louro! Quer café, louro? Coitaaaaado do louro!
Imitava de tudo: cachorro, gato, cabrito, galinha, galo, criança chorando. Ele alegrava o ambiente com a sua bulha, cantando sempre a mesma marchinha de carnaval:
- Se você fosse sincera, ô-ô-ô-ô, Aurora!
Depois de um tempo, a gaiola mudou para dentro da venda, e o louro começou a circular, muito mansinho, por entre as prateleiras e até em cima do balcão, para alegria dos fregueses. Bicho inteligente, ele reconhecia algumas pessoas, e remedava, com a sua vozinha de taquara rachada:
- Bom dia, Nerso! Dá uma pinga aí...
Meu avô enjeitou muito dinheiro nele. De jeito nenhum que ele vendia o louro!
Entretanto, o destino quis que o louro embirrasse justo com a cara do Ico, o pinguço mais chato que havia na cidade. Era só o Ico entrar na venda, que a ave se arrepiava inteira, e, acendendo uns olhos esbugalhados, ia logo expulsando o bêbado:
- Té logo! Té logo!
Era um comportamento muito estranho, já que o nosso papagaio era de paz. Talvez não gostasse do Ico por motivos pessoais, vai saber...
O caso é que um dia, o pinguço se invocou e torceu o pescoço do lourinho, sem dó. Foi uma tristeza geral, e só não torcemos o pescoço do Ico nem sei bem por quê.
foto: Danilo Chequito