
- Então...
Quem conheceu a Júlia, sabe do que eu estou falando. A Júlia era uma figura! Meio desligadona, sem ser relapsa, ela trabalhava direitinho, fazia tudo aquilo que a gente tinha que fazer, diligentemente mas sem apego. Entende?
Ela parecia flutuar acima dos fatos, numa nuvem particular, só dela.
O mundo lá fora podia estar se desmantelando em mil pedaços: tiroteios, perseguições, pancadarias, homicídios, estupros, latrocínios, chacinas, furtos, assaltos, sequestros, greves, incêndios, comoções, que a Júlia não estava nem aí. Fazia o que tinha que fazer, nem mais, nem menos. Sem emoção.
Desligadona e boazuda...
É, tinha esse detalhe. A Júlia era, além de desligadona, uma morena daquelas de fechar o comércio. Alta, classuda, ela ainda por cima usava umas roupas justinhas, que lhe realçavam as curvas e acentuavam as lombadas.
- Um mulherão!
A homaiada da repartição se entreolhava, sequiosa e vexada, um entendendo o desespero do outro. Porque não adiantava nada cantar a Júlia, e todo mundo já sabia disso. Ela não diria não, nem sim. Só iria olhar para o lado, rir uma risadinha macia e enigmática, com aqueles seus dentinhos de boneca, muito juntinhos um do outro e muito branquinhos, e desconversar.
Iria puxar outro assunto, retomaria um diálogo cortado por um evento qualquer, como se, ao invés de horas, só houvessem decorrido alguns minutos, e como se o interlocutor também fosse lembrar do que estavam conversando:
- Então...
E o atrevidinho enfiaria a viola no saco, desistindo de lhe fazer a corte.
foto: "La Gioconda" detalhe - web
- Então...
E o atrevidinho enfiaria a viola no saco, desistindo de lhe fazer a corte.
foto: "La Gioconda" detalhe - web