quinta-feira, 31 de julho de 2008

DESLIGADONA



- Então...

Quem conheceu a Leila, sabe do que eu estou falando. A Leila era uma figura! Meio desligadona, sem ser relapsa, ela trabalhava direitinho, fazia tudo aquilo que a gente tinha que fazer, diligentemente mas sem apego. Entende?
Ela parecia flutuar acima dos fatos, numa nuvem particular, só dela. O mundo lá fora podia estar se desmantelando em mil pedaços: tiroteios, perseguições, pancadarias, homicídios, estupros, latrocínios, chacinas, furtos, assaltos, sequestros, greves, incêndios, comoções, que a Leila não estava nem aí. Fazia o que tinha que fazer, nem mais, nem menos. Sem emoção.
Desligadona e boazuda...
É, tinha esse detalhe. A Leila era, além de desligadona, uma morena daquelas de fechar o comércio. Um mulherão. Alta, classuda, ela ainda por cima usava umas roupas justinhas, que lhe realçavam as curvas e acentuavam as lombadas. A homaiada da repartição se entreolhava, sequiosa e vexada, um entendendo o desespero do outro. Porque não adiantava nada cantar a Leila, e todo mundo já sabia disso. Ela não diria não, nem sim. Só iria olhar para o lado, rir uma risadinha macia e enigmática, com aqueles seus dentinhos de boneca, muito juntinhos um do outro e muito branquinhos, e desconversar. Iria puxar outro assunto, retomaria um diálogo cortado por um evento qualquer, como se, ao invés de horas, só houvessem decorrido alguns minutos, e como se o interlocutor também fosse lembrar do que estavam conversando:

- Então...

E o atrevidinho enfiaria a viola no saco, desistindo de lhe fazer a corte.

foto: "La Gioconda" detalhe - web

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O RIO DA MINHA CIDADE














O rio da minha cidade...
É só um ribeirãozinho tímido, que desce lá do alto das pedras negras e das folhagens trêmulas da serra, e vem gorgolejando, espertinho e anônimo, e ao fim desemboca sabe-se lá aonde. É um fiapo d'água desavisado, que escapou de um rio maior e despencou morro abaixo, buscando o conforto do plano, sempre bordejado de taiobas, inhames e taboas.

A cidadezinha, em decorrência, cresceu saltando para lá e para cá, entre as duas bandas do ribeiro: dum lado fica o comércio, com as suas portinhas azuis de duas folhas, e, do outro lado, ficam as casas de telhados muito velhos, que descem numa procissão meio confusa e torta até chegar no cemitério. Quase todas as casas têm um alpendre com samambaias e antúrios e nenhuma delas é muito bonita, nem muito feia. No meio da subida fica a igreja matriz, o cruzeiro de pedra e um jardinzinho honesto, rodeado de árvores antigas, sob cuja cuja sombra fresca ficam os homens mais idosos e os muitos desocupados, sentados nos banquinhos de cimento e conversando sobre as trivialidades da vida.

Depois de lamber o capim da borda das calçadas, o riozinho faz um circunflexo, e continua o seu curso vagaroso por entre velhos ipês e flamboyants, enfiando-se finalmente debaixo de uma ponte estreita, quase pinguela, na rua da Cadeia
. Mansinho, mansinho...
N
o tempo das chuvas, porém, o fiozinho d'água engrossa e chega a invadir alguns terreiros e hortas, carregando mourões e balaios ou derrubando uma ou outra porteira velha, causando espanto na população entediada e fornecendo assunto para as rodinhas de prosa.

foto: "Taioba Mansa" - Neide Rigo