quarta-feira, 6 de maio de 2009

O VELHO E O GATO


Na poltrona velha, aproveitando o quentinho do sol, o Bóris dormita. Bóris é o gato.
Porque todo solitário que se preze tem que ter um gato, e ele agora é só isso mesmo: um solitário. Sozinho ele acorda todos os dias e fica um tempão sentado na beira da cama, pensando se vale a pena levantar. No fim, levanta e abre as janelas, para que o sol entre nos cômodos vazios.
Sozinho finge que lê o jornal, que continua chegando bem cedo; sozinho toma o café preto na xícara azul e come uma torrada que ele mesmo fez. Com geléia de laranja. Hábitos velhos, que vão se transformando em segunda natureza.
Talvez nunca mudem.
No almoço, entretanto, muita coisa já mudou. Ele não come mais o bifinho grelhado com purê de batata e legumes, como antigamente. Agora ele desce e caminha até o restaurante do Hotel Brasil. Ali, almoça o prato do dia e aproveita para bater um papinho com algum hóspede também solitário. Fica por ali, fumando um charuto, jogando xadrez ou simplesmente fazendo hora, até o meio da tarde, três, quatro horas. Então sobe...

Vai subindo a rua devagar, naquele seu passinho de quem há muito perdeu a vontade de voltar para casa, por falta de motivo. Mas vai subindo pela calçada clara, os treze quarteirões até o prédio verde, de terraço envidraçado.

No terraço, como antigamente, avista os gerânios encarnados, os antúrios e as samambaias de metro. Como antigamente.
Como antigamente, ele sobe os cinco degraus de mármore branco, e senta lá em cima, no terraço, olhando a cidade e o pôr-do-sol.
Contempla a beleza dos últimos raios solares esbatendo-se contra a torre da igreja, os bandos de aves que sempre fazem algazarra nos bambuzais e nas paineiras, perto do rio, e constata que tudo isso perdeu uma porcentagem imensa de significado, agora que ela não está. Que ela já não serve mais como eco amigável às suas palavras, dando aprovação às suas observações sobre tanta coisa. Sobre a música clássica, a ópera, a literatura, a sua poesia... Ela foi embora, ele lembra a si mesmo, e dessa vez ela não volta nunca mais!
Nunca mais.
Quando a noite escura se implanta, finalmente, ele entra nos cômodos vazios e fecha as janelas. Liga a TV e senta-se na velha poltrona, com Bóris no colo, na frente do aquecedor. Juntos, ficam ali um tempo considerável, aquecendo o corpo, pensando na vida e principalmente na morte. Até que o sono chega, e sonham os dois com ela, como antigamente.

foto: Aldo Malagoli

4 comentários:

angela disse...

COMO É DIFICIL SEGUIR COM A VIDA EM ALGUNS MOMENTOS.
gOSTEI DO GATO JUNTO COM O SOZINHO...PODIA SER UMA GATA, MAS AI A HISTÓRIA SERIA OUTRA.
vOCÊ SEMPRE ME EMOCIONA COM SEUS ESCRITOS.

Concha disse...

As ausências,pelas quaís não a podemos substituir,dói duplamente com a solidão.
Ainda bem que há o gato Bóris!!!
Já tive um cão chamado Bóris,"Uskis Siberiano",lindo e imponente...sem dúvida,os animaís são bons companheiros.

João Eduardo Q. C. disse...

Eu admiro quem consegue viver e manter a sanidade numa vida que ficou marasmática assim.

Bjs

Dri disse...

É um quadro distantemente conhecido, muito familiar. Para alguém sozinho, que tem saudades e tem gatos, é claro! Você captura imagens imaginadas fantásticas!
Bjos