quinta-feira, 23 de abril de 2009

SÍNDICA DO UNIVERSO














Era de manhãzinha. A luz do sol, coada pelas copas das árvores, desenhava lindos bordados pelo chão das alamedas, onde os pássaros cantavam nos galhos das azaléias multicoloridas, numa cena digna de cartão postal europeu. Eu ia caminhando e lendo um romance tranquilamente, segurando numa mão o livro e na outra a coleira da cachorrinha.
- Ô! alguém exclamou.
Eu parei, e ainda demorei alguns segundos até juntar as duas coisas, voz e dona. Era uma mulher desconhecida minha, trajando a fantasia completa de perua: calça legging vermelha, mini-blusa de oncinha, tamanco alto dourado, muitas jóias ou semi-jóias, e uns óculos escuros desse tamanho. O cabelo vermelhão, muito eloqüente.
- Falou comigo?
Maldita hora. A perua era metida a síndica do universo, cheia de ditar normas e lamentar o descaso daqueles indivíduos que, malgrado morarem em tão elegante condomínio, não demonstravam a menor consideração para com os demais, abandonando os dejetos caninos expostos em via pública e com isso ocasionando inevitáveis desconfortos deambulatórios para os demais moradores...
- É comigo isso tudo aí?
Não era nada específico. Porque ela até via que eu portava o fabuloso e utilíssimo saquinho cata-caca, fornecido gratuitamente (até parece!) a cada unidade pela atual administração, e blá, blá, blá...
A perua parecia que ia passar o resto da manhã regurgitando regras, porém de repente um calor esquisito começou a me subir, vindo da zona sul em direção à zona norte, e eu não agüentei:
- Escuta aqui, dona. Con-do-mí-nio, para quem entende do vernáculo, é o domínio de vários. Eu estou aqui tentando exercer em paz o meu sagrado direito de ir e vir, no que estou sendo obstada pela sua ignóbil preleção. Trocando em miúdos: a senhora vá procurar a rodilha aonde quebrou o pote!
E lá fui eu, com um sorriso maligno nos lábios, piscando um olho para a minha fiel companheira, a supra mencionada cachorrinha, que por sinal sempre admirou o meu altíssimo saber jurídico. Talvez eu devesse procurar uma ilha deserta...

foto: web

terça-feira, 21 de abril de 2009

CENA FAMILIAR












Teve um dia que a comida acabou. Não tinha nada: nem arroz, nem feijão - nada!
O pai, meio sonhador, ficou ali na porta da cozinha, pitando um cigarro de palha e olhando para o céu, sem ação. Trabalhar, ele trabalhava, mas cada vez parecia que empobrecia mais. Não era esse o caso, trabalhar. O caso, conforme pensava, era que cada dia trabalhava mais e recebia menos. Fazia hora extra, trabalhava no domingo, no feriado, e muita vez deixava de almoçar, para sobrar mais. A questão... Revoltado, ele deu uma tragada profunda no fumo ruim e tossiu. Tossiu enquanto pensava na vida, o que havia de fazer? Roubar? Não... Era o aluguel vencido, era a conta da venda - não queriam mais vender fiado - era era isso, era aquilo outro.... E agora era a criança doente, para acabar de danar tudo. Roubar, não sabia. Não é que fosse tão honesto e nem nada disso, era por medo de ser preso, credo. Precisava dar um jeito. Bateu a ponta do cigarro na unha, ajeitando a brasa, enquanto mastigava uma idéia: ia lá pedir outro vale na fábrica, e pronto. Quem sabe? Não se falava mais nisso. Guardou a bituquinha apagada atrás da orelha e falou assim: - Eu vou lá na fábrica. E saiu.
A mulher, que já fazia muito tempo que não sonhava, resmungou baixinho qualquer maldição pesada, que ninguém entendeu direito. Ela ficou ali parada, com o menino no colo e com o olhar perdido num ponto imaginário da parede descascada da cozinha.Prestava uma atenção imensa num cisquinho que subia pairando no ar, na nuvem cheirando a arruda, levada para o alto pelo calor da trempe de lenha.

- Arruda, ela pensou assim, é isso que precisa, esquenta bem e pronto. E põe no pano e pinga no ouvido e tampa com pano quentinho. Igual a minha mãe fazia. Isso, arruda no paninho quente e pronto, sara. E soprava o fogo e chacoalhava a criança com mais força. O menino pequeno, com a carinha encostada no pano aquecido ao lume, chorava com dor de ouvido. Os outros, desconsolados de fome, esgravatavam o cimento molhado do quintal, judiando dos tatuzinhos e das minhocas. Fome, fome, fome...


- Eu vou catar qualquer coisa de comer, disse. Vocês ficam aqui dentro, e ninguém não reina.

Era já bem tarde, aquele dia, quando o pai voltou, murcho, sem o arroz nem o feijão, e muito menos o remédio do menino. O patrão, desgraçado! Disse que não podia dar vale, que já tinha fechado o caixa. - Quem sabe na segunda-feira? ele falou assim. Desgraçado.
A mãe ainda demorou muito mais a chegar, só chegou quando já estava escurecendo, mas vinha com uns restinhos da feira num saco: toquinhos de cenoura e de mandioquinha, umas batatas machucadas de enxada, umas folhas - era comida! Jantaram como ricos, um sopão de legumes bem quentinho, que alimentou o corpo e aqueceu o coração.
Todos ficaram alegres, sentados ao calor das brasas na noite silenciosa que chegou de vez. O pai acendeu a bituca de cigarro e começou a contar uma história daquelas que sempre contava, ou de mula-sem-cabeça ou de pisadeira, ou de alma-penada ou de cangaceiros, quando não era de enforcados.
O pai era bom. Contava história bonita. A mãe era boa. A mãe não contava história bonita que nem o pai, porque a mãe era sempre silenciosa e muito triste. Mas a mãe dava remédio, dava comida!


- Mãe, você é tão boa! E o menino pequeno, curado da dor, virou para o canto e dormiu.


foto: José Itajaú O. Teixeira