sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

LUZINHAS PISCANDO






Todo ano, ali pelo meio do mês de novembro, era certeza: a velha senhora decorava a pequena varanda do apartamento do terceiro andar com luzinhas pisca-pisca, bolas multicoloridas e enfeites feitos de papel-alumínio. Entrava no clima.
Eu, que trabalhava ali em frente, num servicinho monótono que me permitia trabalhar e ao mesmo tempo soltar a imaginação pelo mundo, sonhava.
Sonhava com a dona daquela varanda - que eu via pelo menos uma vez ao dia, quando ela saía para regar os gerânios plantados em latas - eu sonhava como seria a sua vidinha pacata. Sabia tão pouco sobre ela! Só sabia que ela era velha, que gostava de gerânios, que tinha um gato gorducho e que talvez aquela fosse a sua única companhia naqueles dias e noites nada festivos. Ela certamente era também uma solitária, pois todos nós sabemos que os solitários têm gatos.
Naquele ano, meados dos anos 60, não foi diferente: a velhinha começou a decoração muito cedo. Bolas, flores, guirlandas, luzes coloridas... e então o arremedo de felicidade começou a piscapiscar.
De certa forma, a minha alma era então orientada por aquela parafernália, como se somente depois de ver os seus enfeitezinhos me fosse permitido entrar também no clima certo. De certa forma, eu esperava em suspenso, olhando para cima, para a varandinha do terceiro andar, até a liberação: o sinal verde-vermelho-amarelo-azul, que acendia-apagava-acendia, para ser também feliz. Ainda que supostamente, ainda que convencionalmente, pois só então seria Natal.
foto: web

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SOLIDÃO NO MINHOCÃO


Foi na sexta-feira, entardecia.
Nas mesas das calçadas dos botequinhos ao redor do teatro, os empregados espichavam já as toalhas, alinhando os porta-guardanapos e os tubos de catchup e mostarda. Espalhavam cinzeiros cintilantes, à espera do movimento que viria. Mas era cedo...

Na avenida, rugia o costumeiro barulho, ensurdecedor, enlouquecedor, trans-humano. Os ônibus passando lotados iam sendo secretamente ajudados pelo metrô invisível que, chegando e partindo, ia engolindo pessoas e vomitando-as sem cessar: Estação Santa Cecília! - descia um montão. Estação República! - outro tanto se amontoava feito gado, e se enfiava dentro da goela multifacetada do bichão de lata, que sumia e brotava dos túneis.

Era cedo ainda. A ópera só começava às oito e meia, e então resolvi futricar por ali por perto, nas lojas. Entrei numa lojinha de móveis usados, uma das tantas que tem debaixo da
pavorosa via elevada, conhecida como Minhocão. Atendeu-me uma Dona Neusa, funcionária antiga da casa, muito educada, muito solícita. Eu não queria nada não, estava só olhando, avisei. Odeio esses vendedores que te assediam, feito urubu na carniça! Mas essa Dona Neusa era diferente, tinha bem mais do que mobília usada para oferecer:
- Fique à vontade, que tarde bonita hoje, não?
Realmente. Apesar da fumaça dos ônibus, escurecendo algum fiapo de verde que teimasse em resistir, apesar do tal do Minhocão, encobrindo de concreto cinzento e pichado o nosso horizonte imediato, a verdade é que a tarde estava bonita mesmo. Fazia um calorão dos infernos, e as pessoas andavam de chinelos, bermuda e regatinha, até parecia na praia!
Começamos a conversar sobre o clima, o tal do aquecimento global e as mudanças que têm ocorrido na cidade de São Paulo. Mas não era só o clima que mudara.


- As pessoas vivem correndo, ninguém tem tempo para nada!


Ela me contou que era viúva, sem filhos. Que era aposentada, mas continuava a trabalhar na mesma loja de móveis usados. Ficar em casa para quê? - ela pensou alto. Disse que tinha um gato e que cultivava um vaso de gerânios na janela do apartamento alugado, ali na Avenida General Olímpio. Os imóveis ali eram bem mais baratos, por causa da feiura do Minhocão.
 

- O barulho e a fumaça são assim mesmo, é dia e noite. De noite é menos, porque o elevado fecha. E de domingo também, fica até vazio demais, sabia? Fica tudo muito solitário, e às vezes eu fico até meio triste, sozinha com o meu gato, só nós dois olhando pela janela...


Pensei na ópera que eu ia assistir, logo mais, às oito e meia. "La traviata", de Verdi. Composta no meio do século XIX, falava justamente sobre a solidão de uma certa Violetta, em meio às festas da sociedade parisiense. Pensei na tuberculose que matou a Violetta, e que  hoje em dia tem cura, mas e a solidão?


foto: Fernando Botero