domingo, 1 de maio de 2011

O SONHO DA DINORÁ





"EU VOU TER UMA CASA COM VARANDA"







A frase,  escrita em letras de forma num quadradinho de cartolina coladoa cabeceira da cama, passou a funcionar como uma espécie de mantra. Toda noite, antes de fechar o Neruda e  apagar a luz do abajur, Dinorá lia as palavras que escrevera com canetinha hidrográfica vermelha: 

"EU VOU TER UMA CASA COM VARANDA"

Dormia pensando nisso, e muitas vezes chegou a sonhar que tinha conseguido comprar a casa. De manhã, antes de pular da cama, ela lia a frase, ainda uma vez.
Tomava o seu café solitário na cozinha,  antes de  seguir para o empreguinho besta. Depois, respirava fundo e subia os degraus que a separavam da rua, pegava o metrô ali  perto e ia cuidar da vida. 

Trabalhava no bairro da Luz, e morava na Vila Mariana, num porão escuro e gelado. Eram oito estações.

Olhando a paisagem monótona  recortada através dos vidros de aquário do vagão, Dinorá prosseguia na construção do seu projeto de vida. Um dia ela ainda ia comprar uma casa com varanda, bem batida de sol e com um pequeno jardim na frente, onde plantaria um pezinho de pitanga Nos galhos daria para pendurar um bebedouro para atrair passarinhos. Assim teria sempre a casa aquecida pelo sol e passarinhos cantando na janela. Por enquanto tinha só o bebedouro, feito de uma garrafa pet, na aula de artesanato. Já era um começo...

"Estação Luz! Desembarque pelo lado direito..." 

Dinorá mergulhou junto da multidão apressada - era sempre assim naquele horário. Seguiu mais uma vez entre as caras desconhecidas rumo ao prédio cinzento  fincado na divisa entre a Luz e o Bom Retiro,  entre lojas,  bordéis, hoteizinhos  e botecos sombrios. 

Mas dali a dez horas ela voltaria a sonhar com a casa e com a varanda.




foto: Bebedouro de Gláucia Goes

5 comentários:

José Doutel Coroado disse...

Cara Dalva,
sem sonhos nossa vida seria bem "besta"1
Abs

Marcantonio disse...

Às vezes gostaria de habitar uma zona temperada entre a pura comoção e o ceticismo. Tão melancólico isso. Sabe aquelas cenas de filme em que a câmera enquadra de cima a personagem e vai se afastando aos poucos, e mostra a rua onde o personagem já desaparece, e, em seguida, o bairro, a cidade, o pais, a Terra...? Pois é.

Abraço, Dalva.

angela disse...

O que seria da gente sem um sonho dentro da gente.
Lindo texto.
beijos

vidacuriosa disse...

E um dia, na varanda da casa, ela olhará os colibris colhendo o néctar das flores, e mordiscará uma fruta romá recém-amadurecida no pé e pensará na felicidade de ter insistido no sonho que começou nas letras em papel na guarda da cama.
Belo texto.
Abrs

Clarice disse...

Melhor um projeto do que um sonho. Ou uma promessa, feito Tara: Nunca mais passarei fome! escrito na alma.
E assim se fez.
Abraço e obrigada pela visita e comentários.