
"EU VOU TER UMA CASA COM VARANDA"
Isso assim, escrito em letra de forma, numa cartolina pregada na parede acima da cama, passou a funcionar como uma espécie de mantra. Toda noite, antes de fechar o Dostoievsky e de apagar a luz do abajur, Dinorá lia a frase que escrevera com canetinha hidrográfica vermelha. "Eu vou ter uma casa com varanda". Dormia pensando nela, e muitas vezes chegou a sonhar que tinha conseguido comprar o tal imóvel. De manhã, antes de pular da cama e seguir para o empreguinho besta de telefonista, ela lia a frase, ainda uma vez mais.
Tomava o seu café solitário na cozinha fria, enquanto pensava no conteúdo da frase: "Eu vou..."
Depois respirava fundo e subia os degraus que a separavam da rua, pegava o metrô ali bem perto e ia cuidar da vida. Trabalhava no bairro da Luz, e morava na Vila Mariana, num porão escuro e gelado. Eram oito estações.
No caminho, enquanto olhava absorta a paisagem monótona que ia desfilando recortada através dos vidros de aquário do vagão, Dinorá prosseguia na construção do seu projeto de vida. Um dia ela ainda ia comprar uma casa com varanda, batida de sol e com um pequeno jardim na frente, onde plantaria um pé de romã. Romã é uma arvorezinha bem delicada, e nos galhos daria para pendurar um bebedouro para atrair passarinhos. Assim teria sempre a casa aquecida pelo sol e passarinhos cantando na janela. Claro que teria. Por enquanto tinha só o bebedouro, feito de plástico colorido de uma garrafa pet, na aula de artesanato. Já era um começo...
"Estação Luz!" falou a vozinha nasal do metrô, interrompendo o seu projeto. Dinorá mergulhou misturada à multidão apressada - era sempre assim naquele horário. Seguiu mais uma vez a horda de caras desconhecidas rumo à zona centro, ao prédio cinzento da empresa que ficava fincada na divisa entre a Luz e o Bom Retiro, em meio a bordéis, hoteizinhos de curta permanência e botecos sombrios. Só dali a dez horas ela voltaria a sonhar.
5 comentários:
Cara Dalva,
sem sonhos nossa vida seria bem "besta"1
Abs
Às vezes gostaria de habitar uma zona temperada entre a pura comoção e o ceticismo. Tão melancólico isso. Sabe aquelas cenas de filme em que a câmera enquadra de cima a personagem e vai se afastando aos poucos, e mostra a rua onde o personagem já desaparece, e, em seguida, o bairro, a cidade, o pais, a Terra...? Pois é.
Abraço, Dalva.
O que seria da gente sem um sonho dentro da gente.
Lindo texto.
beijos
E um dia, na varanda da casa, ela olhará os colibris colhendo o néctar das flores, e mordiscará uma fruta romá recém-amadurecida no pé e pensará na felicidade de ter insistido no sonho que começou nas letras em papel na guarda da cama.
Belo texto.
Abrs
Melhor um projeto do que um sonho. Ou uma promessa, feito Tara: Nunca mais passarei fome! escrito na alma.
E assim se fez.
Abraço e obrigada pela visita e comentários.
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