sexta-feira, 31 de agosto de 2007

NO METRÔ


Assim como a enxurrada que passa depois da chuva, carregando consigo folhas secas, gravetos e formigas dos barrancos, o trem noturno desliza potente nos trilhos de aço, levando as pessoas no seu fluxo quase silencioso. É a última viagem da noite.

Os derradeiros passageiros entram nos vagões quase vazios e vão se espalhando sonolentos, sentando-se perto das janelas por puro costume,  que todas elas mostram o mesmo paredão cinzento e monótono dos subterrâneos da cidade.

As pessoas economizam expressões e parece que plastificaram as caras. Ninguém é triste, ninguém é feliz naquele universo que se arrasta noite adentro. Fechados  em seus casulos, evitam  o contato na promiscuidade da massa. Quase todos tem fones de ouvido. Ninguém fala,  ninguém ouve,  ninguém vê.

A cada parada, homens e mulheres  executam um um insólito bailado de movimentos tragicamente avaros, equilibrando-se até os bancos de plástico ou até a porta eletrônica, esquivando-se  ao toque, driblando o contato visual.  
 Se acaso um olhar vago encontra outro vago olhar, ocorre como que uma descarga elétrica, e os olhos fogem e resvalam  para um ponto fixo no  sub-mundo de ferro e cimento.

O silêncio é  quase religioso. Só se escuta o zumbido enfezado da máquina e o  chacoalhar de caveira das rodas nos trilhos.

Na estação semi-deserta ainda sobem mais umas almas. O trem segue.

foto: "Body Piercing" - Fun Advice


2005

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