
O ônibus partiu às seis em ponto, e ela sentou-se à janela. Olhava como se visse pela primeira vez a paisagem que deixava para trás: cercas, postes, muros, casas, e aquele céu sempre cinza, sempre cinza...
Levava a mala no colo, e já era inverno. Sentia frio.
Na tarde cinzenta, chegou à cidade e subiu a ladeira da praça sem olhar para trás. Andava apu rada como quem sabe que já é tarde para o último ato, e não quer se atrasar.No portão de ferro, parou. Olhou a escada de pedra branquinha, conferiu os gerânios nos vasos, a gaiola no gancho e subiu. Bateu de leve na porta, três pancadas.
- Quem é?
Ela sabia que ele a estaria esperando, e arriscou um sorriso.
- Sou eu!
Daquele momento em diante, não se sabe ao certo quem é que decidiu que a noite devia chegar, enchendo o mundo de suspiros e vírgulas . Nem quem decidiu que o rádio devia tocar um bolero antigo, ou que o vinho devia ser tinto, as almofadas macias e o fogo na lareira devia estar tão bom.
Não se sabe também quem foi que acendeu as estrelas, e mandou que a lua apontasse no céu; quem fechou a cortina, acendeu o abajur e fumou o primeiro cigarro.
A gaiola ficou lá fora, no escuro.
foto: "Lovers in the moonlight" - Marc Chagall
2005