sábado, 8 de setembro de 2007

A GAIOLA NO ESCURO

""Lovers in the Moonlight"- Marc Chagall




O ônibus partiu às seis horas em ponto, e ela sentou-se à janela. Olhava como se visse pela primeira vez a paisagem que deixava para trás: cercas, postes, muros, casas, e aquele céu sempre cinza, sempre cinza...

Levava a mala no colo, e já era inverno , ou não era? Sentia frio.
Na tarde cinzenta, chegou à cidade e subiu a ladeira da praça sem olhar para trás. Andava apurada como quem sabe que já é tarde para o último ato, e não quer se atrasar.
No portão de ferro, parou. Olhou a escada de pedra branquinha, conferiu os gerânios nos vasos, a gaiola no gancho e subiu. Bateu de leve na porta, três pancadas.
- Quem é?
Ela sabia que ele a estaria esperando, e arriscou um sorriso.
- Sou eu!
Daquele momento em diante, não se sabe ao certo quem é que decidiu que a noite devia chegar, enchendo o mundo de suspiros e vírgulas . Nem quem decidiu que o rádio devia tocar um bolero antigo, ou que o vinho devia ser tinto, as almofadas macias e o fogo na madeira devia estar tão bom.
Não se sabe também quem foi que acendeu as estrelas, e mandou que a lua apontasse no céu; quem fechou a cortina, acendeu o abajur e fumou o primeiro cigarro.
A gaiola ficou lá fora, no escuro.

foto: "Lovers in the moonlight" - Marc Chagall

2005

MEU GATO


Num dia frio e cinzento como hoje, abandonaram o gatinho aqui na porta da minha casa: uma bolinha preta que esganiçava, sem forças nem sequer para miar.

Eu o recolhi, é claro, e o embrulhei numa blusa velha de lã. E, apesar de ter jurado nunca mais ter animais de estimação, eu tratei dele com mamadeira, até ele começar a comer comida de gato.

Naquela hora eu esqueci de tudo, da trabalheira que eu iria ter, do preço da ração, da sujeira da caixa de areia, dos arranhões inoportunos, da batalha contra as pulgas e da miadeira no meio da noite. Eu só vi aqueles dois olhinhos remelentos me olhando, e aquele bichinho preto me implorando para ser meu.

Não resisti.


Ali mesmo no portão, nasceu entre nós um amor incondicional, daqueles que não vêem cara nem coração e que não escolhem hora ou lugar.


Eu amo o meu gato pelo que ele é: um gato preto chato e altivo, pedante, livre, exigente e interesseiro como só um gato tem a coragem de ser. Eu tenho certeza de que ele me ama também, mas a seu modo.


Entre nós nasceu também uma confiança inabalável no sentido da palavra "sempre" e na verdadeira permanência de certas coisas: eu sei que ele sai à noite para singrar outros mares de loucura, mas sei que ele sempre volta. Ele também sabe que eu sempre estarei aqui, esperando, que haverá sempre água limpa no pote e que sua tigelinha de ração estará no mesmo cantinho do chão da cozinha.


Como agradecimento, eu sei que ele só vai se dignar a roçar o corpo inteiro nas minhas pernas, e depois vai deitar enroladinho na sua poltrona predileta, e dormir o sono esplêndido dos gatos.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O CHICO DOMINGUES


Chico Domingues, o marido da Cota, era sossegado demais. Não havia nada nesse mundo de Deus que o fizesse andar mais ligeiro, abreviar um caso, e muito menos correr.

Queria vê-lo contente era no meio de uma roda de gente, numa vendinha de beira de estrada, dessas umas aonde o freguês apeia e amarra o cavalo para comprar aguardente, rapadura, tecido, espelhinho, pente, panelas, querosene, de tudo. Ele ia à venda fazer suas comprinhas mas também para prosear. Costumava chegar de tardezinha, com a viola no ombro e um embornal amarrado no arreio. Bebia a sua pinguinha devagar, sem ficar tonto, só para limpar a garganta, entende?
E vai e vem, e vai e vem, uma modinha puxava outra, uma pinguinha puxava outra... Se tivesse uma sanfona, então... Aí é que ele amanhecia na venda!
E foi isso mesmo que aconteceu no dia em que a Cota, mulher do Chico, sentiu que era chegada a hora dela:

- Ai, minha Nossa Senhora do Bom Parto!

Chico, acocorado na porta da casa, enrolava um cigarrinho de palha. Fechou e guardou carinhosamente o canivete na cinta, colocou o pito atrás da orelha, depois perguntou:

- Que foi, Cota?

Era o filho querendo nascer. Arreou o cavalinho amarelo e rumou para a vila, chamar a parteira.

- Vai logo! gemeu a mulher, nas dores.

O negócio é que, no caminho da casa da parteira, ele passou na frente da venda, onde uns tropeiros tinham achado de começar uma rodinha de viola e sanfona. Para quê! Chico achegou-se, curioso, aceitou uma pinguinha, não dava para recusar. E aí foi uma pinga, mais outra, uma modinha, mais outra... quando quer ver já era de noite, e parteira que é bom, nada! De vez em quando, para não dizer que tinha esquecido da obrigação, Chico Domingues lembrava:

- Ih! Coitadinha da Cota, heim? - e tocava mais uma modinha...

fev 2007

O CRENTE VALENTE


O casalzinho de evangélicos, certamente que voltando da igreja, ia sentado num banco do ônibus. Já era bem tarde, quase umas onze horas e os outros passageiros fitavam com o olhar monótono a chuvinha fina e insistente nas janelas embaçadas.

Na Senador Queiroz, entretanto, subiram dois rapazes visivelmente alterados. Sabe-se lá o que tinham bebido, fumado ou cheirado, pois começaram a incomodar os passageiros, fazendo gracejos bestas e rindo muito das próprias piadas. Implicaram com os evangélicos:

- E aí, irmão, tudo na santa paz?

- E aí, irmãzinha? Tem jeito aí?

Coisas assim, idiotices de quem não está lá no seu estado normal. Os outros passageiros desviavam o olhar, acabrunhados, não querendo intervir. E o casalzinho evangélico firme, olhando para a frente, sem reagir.

- Ô da Bíblia! Faz um milagre aí, vamos ver!

Foram assim, zoando e rindo, até que, na altura da Praça da República, o mais patusco deles cometeu a besteira de colocar a mão no rosto da crentinha, que se encolheu toda no banco. Aí o tempo fechou: o marido, colocando a Bíblia no banco, levantou-se:

- Escuta aqui, ô seus palhaços: vão descer agora, ou vão querer apanhar aqui dentro mesmo?

E já foi catando os dois pelo cangote e jogando-os para fora do ônibus, a poder de sopapos e pescoções. O povo vibrava, admirado da valentia do crente.

- Deus manda ser humilde, mas não manda ser frouxo!

E o ônibus seguiu a viagem, na santa paz.

dez 2006

O PEPINO TORCIDO



É de pequenino que se torce o pepino, dizem. Mas, se hoje eu me considero um ser humano ético, de elevados valores morais e de reputação ilibada, devo também admitir que nem sempre fui inteiramente assim. Aliás, nasci com uma franca quedinha para a criminalidade e foi a minha santa mãezinha que, com a sua orientação firme e firmes chineladas, fez que eu me amoldasse à essa forma de pessoa honesta que ora ostento.

Lembro até hoje dos episódios do pente e da caneca..
Foi assim. Eu tinha uns seis, sete anos, talvez menos, talvez mais. Voltava do grupo escolar, feliz e saltitante, trazendo na malinha da escola um pente alheio. Era um pentinho simples, marronzinho, daqueles de plástico.
Chegando em casa, com a santa inocência dos verdes anos, mostrei o pente à mamãe. "Onde você arrumou esse pentinho?" - ela perguntou, carinhosa. Não adiantou nada eu dizer que tinha achado no chão: ela me fez voltar, no dia seguinte, e entregar o pente para o dono. Um vexame...
Passou algum tempo e encontrei na rua uma canequinha verde, de ágate. Achei tão bonita, afinal eu não tinha quase que nenhum brinquedo, então levei-a para casa, escondida na mala. Já na esquina, entretanto, uma lembrança fez com que eu me contivesse. Ela ia descobrir, ia me fazer voltar com a caneca! Que fazer? Ora, ali pertinho tinha uma obra, diante da qual estava um monte de areia. Era isso! Enterrei o canequinho de ágata na areia para quando quisesse brincar. Era só ir ali, desenterrá-lo e pronto! E lá fui eu, alegre, para casa.
Lá pelas tantas, lembrando da caneca, voltei ao monte de areia. Ela tinha sumido! Alguém tinha cavoucado e tirado o meu tesouro dali, deixando só a areia escarafunchada no monte. Voltei para casa com o rabinho no meio das pernas e novamente a inocência da tenra idade me denunciou:

- Manhê, sabe aquela canequinha verde do monte de areia? Não fui eu não, viu?

Não lembro se houve chineladas, mas foi grande a lição de ética.

O CIRCO















De vez em quando chegava na cidade um cirquinho fuleiro, no qual os artistas eram sempre os mesmos: dois trapezistas, um mágico, uma família de equilibristas e um palhaço meio sem graça. Mas a gente se encantava com qualquer coisa diferente que aparecesse e o povo todo ficava boquiaberto, assistindo seu desfile pela rua principal:


- Senhoras e senhores!

Na noite da estréia, lá estávamos nós, na fila indiana da bilheteria, uma hora antes. Vai que não se encontrassem lugares!
Com um saquinho de pipoca na mão, sentávamos com os olhos arregalados nas arquibancadas, debaixo da lona velha e coalhada de furos. O show começava. No picadeiro, surgia o palhaço travestido de apresentador, com um suspeito sotaque italiano:

- Signora i signori!

E os artistas se revezavam nos diversos números, diante da platéia deslumbrada. Eu nem piscava.
De repente, as luzes mudavam para um funéreo tom de azul, e anunciava-se a segunda parte da função: o drama! Sem dúvida nenhuma, a minha parte favorita do espetáculo.
Apresentava-se um teatrinho singelo, de personagens estereotipados, versando sempre sobre um drama amoroso, uma tragédia familiar ou alguma passagem bíblica. Os atores eram novamente o palhaço sem graça, vestido de Cristo, de Diabo ou de Sansão, conforme a necessidade. Eram tramas simples, nas quais o Bem sempre vencia o Mal e a virtude era sempre recompensada com a felicidade duradoura. A gente se derretia.

Hoje em dia, para me fazer rir ou chorar, é preciso tão mais!

Foto: "Circo" - Joan Miró

NOVE DE JULHO


Teve uma tarde que choveu, choveu, choveu...


Fechadas em casa, as duas passavam as horas em busca do que fazer, matando o tempo.
Uma bordava lentamente, perto da luz forte do abajur,  panos de prato com caprichadas figuras, girassóis alegres, morangos intensos. A outra, tendo desligado o rádio por causa dos raios, olhava pela janela, lá embaixo, o trânsito que se arrastava e já se engarrafava na entrada da Avenida Nove de Julho. Será que ia ter enchente?

De repente, uma freada brusca e começou um alvoroço na calçada do boteco da esquina. Uma multidãozinha se fechou em volta do fato, criando uma parede escura de capas e guarda-chuvas.

- Será atropelamento ou será briga?

Não dava para ver direito, tudo parou por uns breves minutos, ocasionando buzinas irritadas. A chuva aumentou mais. Chegou uma viatura que talvez já fosse passando quando foi parada pelo povo. Alguns abriram alas.


- Ó, chegou a polícia!

Ela continuava irradiando os fatos com riqueza de detalhes, como se a outra fosse cega. Tinha sido coisa feia, porque o povo não aluia, nem com a chuva. Nem com a chuva! 
O rio que mora debaixo da avenida  foi aumentando,  ia ter enchente sim, podia escrever.

- E-vem a água! Olha a altura da enxurrada, já chegou na porta do bar...


Relâmpagos, raios e trovões medonhos, ribombavam no vale fechado entre prédios altíssimos e velhos viadutos cinzentos. Os paninhos de prato, dobrados em quatro, somavam  girassóis e morangos, enquanto as horas escorriam,  vagarosamente. A outra seguia o relato,   cotovelos fincados na soleira da janela:



- Ó, lá e-vem um. E e-vem mancando! Ou será que ele já era manco?








2006

A CASA DO MEU AVÔ

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A casa do meu avô tinha uma sala muito grande, de tábuas largas e já meio afundadas pelo passar do tempo. 

No meio da sala, havia uma mesa escura, com algumas cadeiras estofadas.  Num canto, uma grande cristaleira, sem dúvida o móvel mais valioso da casa, onde ficava uma compoteira de vidro, alguns bichinhos de louça e uma garrafa amarela de licor com meia dúzia de copinhos da mesma cor. Sobre a cristaleira, o rádio, grande e importante.  Noutro canto, a bilha de água fresca sobre a mesinha alta enfeitada com um paninho de crochê.
Nas paredes, quase junto do teto, ficavam pendurados os sisudos retratos de avós e bisavós, homens de bigode grosso e mulheres de queixo duro, cujo olhar nos acompanhava pela sala, onde quer que a gente andasse.

Da sala partiam as portas para os quartos e para a cozinha de paredes escurecidas pela fumaça do fogão de lenha. Ali, empilhadinhos no velho guarda-comida, havia uns pratos muito antigos, de florzinhas azuis, uns canecos de louça e só.  Ainda não tinham chegado os eletrodomésticos. Latas de mantimentos muito bem ariadas resplandeciam no alto das prateleiras: arroz, feijão, açúcar, café.

Na janela da cozinha, a gaiola do papagaio.

Um cômodo grande servia de depósito para a venda do meu avô: ali conviviam em franca anarquia cachos de banana, garrafas de pinga curtida, escuros rolos de fumo, panelas e tachos de cobre, tecidos baratos, botinas jeca-tatu e alpargatas, bem como as folhas de rapadura e goiabada embrulhadas em palha e as linguiças pendendo da corda. Era uma balbúrdia de cheiros doces e honestos que não se definem com palavras, mas que continuam vivos na alma da gente, anos e anos depois.
No alpendre fresco havia antúrios e samambaias, uma dama-da-noite plantada numa lata grande de óleo e um banco onde a gente se sentava, de tarde, para olhar a rua e ver a noite chegar.

Na calçada, um jasmineiro entojado, que nunca se dignou a dar flor .

sábado, 1 de setembro de 2007

O MINUTO


foto: "Tempo" - Spagnollo



Um rosto anônimo me olhou brevemente de dentro do trem, e logo tornou a sumir na multidão. Nossos olhares se cruzaram e, ainda que por um minuto apenas, partilhamos uma imensa cumplicidade quanto às grandes verdades da vida: eu penetrei o seu mundo e ele também devassou o meu interior. Não pude esconder daqueles olhos os meus bem guardados segredos, nem a minha relutante nudez.
Aquela intimidade durou apenas um minuto, mas equivaleu a uma eternidade. Antes daquele anônimo olhar eu era singular e me pertencia por inteiro, mas, depois dele, o estranho e eu nos pertencemos.
Além disso, de alguma forma eu sinto que aquele minuto estancou, ficou na minha lembrança para sempre, perpetuado como uma fotografia, ou a pretensa eternidade das lápides.
O trem continuou sua viagem, e cada um de nós desceu numa estação, sem olhar para trás. Porque não seria certo.

2005

SALA DE ESPERA


Aos dezoito anos, comecei a trabalhar como recepcionista no consultório de um cirurgião plástico. O servicinho era fácil, era só atender o telefone, marcar as consultas na agenda e receber os pacientes.

A clientela era composta de gente bem de vida: atrizes de cinema e TV, mulheres ricaças, muito refinadas. Na maioria...
Elas chegavam, muito grã-finas, com as suas jóias, suas roupas de griffe e seu perfume francês, e sentavam-se na sala de espera, folheando revistas. Antipáticas, algumas nem sequer cumprimentavam, me ignorando como se eu fizesse parte da mobília.
Na primeira consulta, o médico as entrevistava, solicitava exames de laboratório e, quando obtinha os resultados, agendava a a cirurgia, fotografando-as primeiro, para poder comparar o "ANTES" e o "DEPOIS". Depois da operação, a paciente era novamente atendida no consultório, para fazer curativos, retirar algum ponto, verificar o andamento da cicatrização, cuidadosamente. Era um bom médico.
Numa segunda-feira, chegou no consultório uma mulher morena, bonitona, mas exageradamente maquilada e trajando umas roupas muito estrambólicas, parecendo uma prostituta. E era mesmo.
Estava abaladíssima e, conforme declarou diante das outras pacientes atônitas, ela era puta sim, ganhava a vida trabalhando na rua sim, e tinha vendido um Fusca quase zero para pagar sua cirurgia plástica de mama. E não estava nem um pouquinho satisfeita com o resultado:

- Olha só que merda de serviço que esse filho da mãe fez! Olha só essa merda! Não está mesmo uma merda? Pode falar!

Ela levantava o bustiê, mostrava os seios, berrava palavrões, assustando a madame antipática, que parou de folhear a revista. Eu, roxa:

- Senhora, o doutor já vai atendê-la, só ele pode dizer para a se...

- O cacete! Olha isso aqui! Esse filho da mãe vai ver só. Ou ele conserta essa merda ou eu ferro ele. Ah, se ferro...

Ela havia feito uma cirurgia para redução dos seios, que eram imensos e que, além disso, tinham ainda uns pelões horríveis nos mamilos. Ficou até bom, comparando-se as tais fotos anteriores e posteriores, mas a questão é que os seios da coitada estavam mesmo muito assimétricos. Um olhava para o Oiapoque e o outro, despinguelado, olhava para o Chuí, sabe como é?

- Eu vou na televisão, eu vou no rádio, eu vou no inferno, mas ele vai consertar isso aqui, e eu não vou pagar nem mais um centavo. Nisso, o médico chamou:

- A próxima!

Eu não fiquei sabendo se o cirurgião operou de novo ou se não operou, se ela pagou pela cirurgia ou se não pagou, ou que diacho foi que os dois conversaram lá dentro. Só sei que ela saiu calminha, calminha.

- A próxima!

E a grã-fina antipática entrou, meio com medo. Bem feito!

2005